domingo, 22 de julho de 2012

Tarde em Fúria

(Henrique Borralho e Patrícia Luzio)

Conforme eu avançava, a calçada encurtava. E lá longe, um céu azul varrido de laranja-ocaso.

Transeuntes, andarilhos, uma bicicleta-cinema projetava um desenho rabiscado de meninice no vidro da minhoca de metal que corta a cidade. 

Escadas que sobem e descem, gente que vem e vai sem se dar conta de que talvez suas vidas estivessem projetadas naquela tela-improviso.

E de repente, avisto aquela anca, talvez a mais fascinate que já vi, pelo volume e cadência num molejo musical – nem precisava ver o resto que a portava, só ela me chamava os olhos, indo e vindo.

Do outro lado, pari passu à anca, um morador de rua arrumava sua cama, embolando pilhas de papelão para suportar o frio do dia e das pessoas que não lhe aqueciam a alma, nem a pele.

E a menos de cem metros, outro faminto – menos de comida do que de olhar – chafurdando o lixo. E vi que ali havia restos consideráveis, mas não para ele que os lançava pelos ares como quem diz “não é deste alimento que meu corpo tem fome”.

Quem se importa? O trânsito é frenético, as luzes se acendem à noite, e a pressa não é menos veloz. 

Os afazeres dão a tônica do caminhar. Os passos rápidos não permitem saber quem tem ou não fome. A fome é interna; o frenesi, externo. 

Um chamado me acorda: "volta pra casa?". Estranho: ninguém me espera onde lá, também chafurdo meu lixo, em busca de uma calma impossível de existir ali.





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