sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sebastião no Telhado

(Patrícia Luzio e Henrique Borralho)

Ele sempre esperava o sol esfriar, assim poderia subir no telhado e, de frente para o céu, contemplar o ocaso, o início do estimpar das estrelas e a força de outra luz – a da lua.

Este era o momento mais mágico do dia, e temia que um dia deixasse de ser o da sua vida. Rogava por permanecer ali até se tornar céu, estrelas, lua e telhado. Não queria perdê-los, não queria se perder. Entretanto, há tempos ouvia dizer que era inexorável...

Aqueles instantes eram indizíveis, indeléveis, quase intermináveis. O lugar era seu, único, singular. A vida em suspensão. Estar no telhado era ficar mais próximo do céu e distante de tudo. 

Mas, haveria de descer. Não havia outra direção, afinal. Nem sentido. 

E, à sua frente, a saga: re-unir-se em telhado e chão duro, céu e terra úmida. A lua haveria de ser decifrada. Quem sabe cantada?

A descida era quase sempre uma espécie de morte re-vivida, um espaço intermitente para uma nova subida. 

Os anos se passaram e de sua autista criatividade, aprendeu a subir sem morrer, gargalhando, desafiando aquela morte revisitante, construindo o saber-coser um fio de aço invisível que mantivesse o telhado dentro, e não mais lá fora, no alto. 


Sebastião ergueu seu próprio telhado.

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