domingo, 1 de julho de 2012

O sol como antitese das sombras que há em nós

Para meu grande mestre Marcos Antonio Macedo Muniz 

Uma estela ocupa o alto de uma pirâmide azteca. Bem de perto, a representação do sol. Para eles, o deus Huitziloptli. Não apenas entre os aztecas, antigas outras civilizações tinham o sol por divindade: deus-sol, Apolo para os gregos, Rá, no Egito antigo, Agni, na Índia, Mithra, na Pérsia. 

Entre os nossos indígenas, Tupã era a estrela incandescente gigante, a representação da luz e ao mesmo tempo um deus. Para os incas, Inti, o deus-sol, era a suprema força do universo. Toda cidade inca é ao mesmo tempo um centro administrativo e religioso, tendo por função a atividade astronômica. Eles dependiam do sol para tudo, afinal, como hábeis observadores celestes, necessitavam do astro para definição de plantio, colheita e calendário e, sobretudo, para as festividades, tendo como ponto alto, a festa do sol, no nosso calendário, mês de Junho.

A 40 km de Lima existem até os dias atuais as ruínas de Pachacamac (em Quéchua quer dizer: aquilo que dá vida ao mundo), um centro religioso, templo com vistas para o Pacífico do deus-sol Inti. Todos os dias havia o ritual do pôr-do-sol. O lugar é belíssimo, feito de barro, com templos em cima das dunas, majestosamente erguido como adoração de sua suma divindade.  

Curiosamente em Jericoacoara, Ceará, existe um ritual parecido que se repete todos os dias do ano na duna do pôr-do-sol. Os turistas que lá se encontram dirigem-se ao cume, por volta das 17 h, sentam-se em frente ao Atlântico e ao sol esperam silenciosamente o seu ocaso. Quando acontece, geralmente por volta de 17:45 h, todos aplaudem o astro-rei e voltam para a cidade, bem perto, uns para assistir a jogos de capoeira, bares, dentre outras coisas. 

Além de um fenômeno natural belíssimo, um dos maiores da natureza, por que ao longo da história antigas civilizações o cultuaram? Pode ser pela relação do nascimento do pensamento ascético, ou seja, na ausência de uma explicação racional astronômica as sociedades divinizaram o sol por não compreender seu sentido físico, composição de hélio e outros gases, mas considero isso muito pouco. A questão é que existe uma intrínseca relação entre o sol como centro do sistema solar, equilíbrio dos planetas, portanto, do nosso universo, e o coração humano, centro do universo particular.

Por essa razão, todas às vezes que se fazia um sacrifício humano entre os aztecas, arrancando o coração da vítima, ritual religioso, erguia-se ao sol, ou seja, o centro do universo humano era oferecido ao centro do universo planetário.            

Antigas civilizações, dentre elas a azteca, longe do racionalismo empiricista moderno ocidental, desenvolveram a capacidade intuitiva de pensar com o sentimento, pré-sentir, confiar no que imaginavam bem mais do que deduziam. Por isso, sabiam que o sol era o centro do universo e não a terra, como apregoou o imaginário católico medieval. E por causa da teoria heliocêntrica, Copérnico, descobridor desta, Kepler e Galileu foram duramente criticados pela Igreja católica; Galileu foi condenado pela Inquisição, depois foi perdoado pelo Papa João Paulo II.

O sol como centro de disputa religiosa, quer na reforma de Akhenaton no Egito antigo, quer durante a Idade Média (teorias geocêntrica e heliocêntrica), precisa ser visto com olhos de lupa, bem de perto. Essa questão passa também por razões de fórum existencial, ou seja, por aquilo que o sol apaga, as sombras, quer coletivas, quer individuais. 

Como a capacidade discursiva de pensar o indivíduo como construção da subjetividade é uma invenção moderna – o que os gregos faziam era a investigação da psique –, antigas civilizações limpavam suas sombras coletivas cultuando o sol, afinal, se o coletivo estivesse resguardado pela claridade da luz, os indivíduos também estariam.

Como nas sociedades contemporâneas, ritos de limpeza das sombras saíram do patamar coletivo nacional para agrupamentos menores (religiões, terapias) e, sobretudo, para o plano individual, aparecimento de técnicas como a psicanálise, como forma de lidarmos com nossas sombras, são cada vez mais necessárias dentro de um mundo racional, individual, tecnocrata, pragmático. 

Em sociedades como a balinesa, existe um rito em que todo balinês aos 17 anos tem seus dentes limados e nivelados para que os demônios da raiva, da inveja, orgulho e cobiça sejam exorcizados, segundo Connie Zweig (falarei adiante). Cerrar os dentes nesse caso significa liberação das sombras. Mas, o que são as sombras? Segundo Jung, em O lado negativo da personalidade: “a soma de todas aquelas qualidades desagradáveis que preferimos ocultar, junto com as funções insuficientemente desenvolvidas e o conteúdo do inconsciente pessoal”. São a nossa incapacidade de lidarmos com nossos problemas, traumas e a revelação do nosso lado mais obscuro que guardamos no nosso ego. E todos temos lados obscuros, aflorando aqui e acolá. Elas aparecem desde a infância. As crianças aprendem a lidar com o lado obscuro da humanidade através da literatura. Os contos de fadas são a melhor expressão disso. 

As formas de aparecimento das sombras são sutis, não nos damos conta, pois que o ego camufla, disfarça, esconde e mente. É difícil lidarmos com nossas sombras, elas são miméticas. 

Já faz um tempinho, no meu apartamento, depois de passar lustra móveis no meu guarda-roupas, as duas portas laterais são pretas, as duas do meio são bege, deitado na minha cama, tive aquilo que se chama de ilusão de ótica. O movimento que fiz com o pano deixou exatamente entre as duas portas o desenho de um rosto dividido ao meio; de um lado da porta, “um anjo”, do outro, “um demônio”. Intrigado com a cena, afinal, o desenho era nítido (não vou recorrer aqui ao gestaltismo para explicar o formato [Gestalt, escola alemã de psicologia que estudava a duplicidade de desenhos e formas, em oposição ao Behaviorismo estadunidense]), fui tomar banho, quando tive um insight: todo ser humano carrega em si o bem e o mal, é portador da bondade e da maldade, depende de quais mecanismos ele acione mais. Foi inevitável não pensar nas minhas sombras.

Vou chamar aqui de maldades características que usualmente cognominamos como tais por serem antíteses de comportamentos considerados bons, como: inveja, ódio, raiva, cobiça, mentira, desfaçatez, traição, leviandade, hipocrisia, falso-moralismo, tirania, opressão, perversidade, dentre outros, embora no plano da existência, só é possível entendermos esses sentimentos  por aquilo que Kant chamou de pares antitéticos, ou seja, só compreendemos uma coisa quando automaticamente correlacionamos com aquilo que seja seu oposto.  

Entre os antigos chineses, o símbolo que representa a dualidade é exatamente o da harmonia: um círculo dividido ao meio por uma linha sinuosa, elíptica, tendo por um lado uma parte branca com uma bola preta, do outro, uma parte preta com uma bola branca. Esse símbolo é a expressão da dualidade humana.

Têm pessoas que aparecem nas nossas vidas trazendo ainda mais luzes, mas escondemos nossas sombras,  outras trazem sombras, mas escondemos nossas luzes, e umas outras ainda fazem aflorar ao mesmo tempo luzes e sombras. É bom questionarmos por que acionamos esses tipos de pessoas em nossas vidas, qualquer que seja o referencial e modelo. O que o nosso inconsciente, leia-se, sombras, querem  escamotear? 

Connie Zweig e Jeremiah Abrams, organizadores da coletânea: Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana (Editora Cultrix, 1991, p. 17) afirmam: 

Não podemos olhar diretamente para esse domínio oculto. A sombra é, por natureza, difícil de ser apreendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta, como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida.

O analista jungiano James Hillman, autor de diversas obras, diz: “o inconsciente não pode ser consciente; a Lua tem seu lado escuro, o sol se põe e não pode iluminar o mundo todo ao mesmo tempo, e mesmo Deus tem duas mãos. A atenção e o foco exigem que algumas coisas fiquem fora do campo visual, permaneçam no escuro. Não se pode olhar em duas direções ao mesmo tempo”. 

Por essa razão, as sociedades antigas sempre cultuaram e as contemporâneas continuam a contemplar o sol. Ele não é apenas um astro físico que nos traz luz e calor, é a energia vital tensionante entre o dia e a noite, claridade e sombra, afinal, todos os dias o sol se põe para no outro dia erguer-se de novo. É um movimento cíclico, como é a vida; ambivalente, caótica, desconexa, prolixa, porque somos a quintessência do que é o universo, mas não sabemos lidar com isso. O universo está em nós, somos o universo. Criamos e destruímos, amamos e odiamos, procriamos e matamos, fazemos e desfazemos, inventamos e conservamos, agrupamos e separamos, ensinamos e deseducamos, aprendemos e erramos. 

O sol e a lua estão dentro de nós. Eles não são antagônicos, são complementares, duais. 

Como nós.

Então, para celebrar a luz do sol, uma toada de chegar, de Chagas, Bumba-meu-boi da Maioba:

Se não existisse o sol,
Como seria pra terra se aquecer?... 
Se não existisse o mar,
como seria pra natureza sobreviver?... 
Se não existisse o luar... 
o mundo viveria na escuridão... 
mas como existe tudo isso meu povo... 
eu vou guarnicer meu batalhão de novo!! 
Ê boi rapaziada!!!














8 comentários:

  1. Disse tudo sobre a dualidade que sempre acompanhou o ser humano, Henrique!Parabéns pela clareza e pertinência do assunto. Bjsss.

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    1. obrigado celinha. é assim mesmo, a gente vai vivendo e aprendendo. tenho tentado entender as minhas. mas sem deixar de ser feliz. aprender a entender as dualidades é a melhor forma de sermos felizes

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  2. Quando lhe percebi poeta do sol, não estava equivocada. A sua ligação com o astro rei é visceral, salta as clarosentre linhas. Parabéns pelos textos, claros como o sol.

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  3. Querida Dorian, são as pessoas que cruzam nossos caminhos que nos fazem brilhar, como você, por exemplo, sempre ávida por aprender, sede de viver,apesar dos percalços. Tua sede de viver é impressionante, lição de vida para todos. Tua busca é infinda. Saiba que te admiro muito. Tua vida é um exemplo a ser seguido.

    abraços do amigo Henrique

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  4. muito lindo! você realmente é uma pessoa iluminada bjs.

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  5. muito bom Henrique! Vide o conto de Oscar Wilde : O pescador e sua alma. Em suma este conto ocorre assim: um pescador se apaixona por uma sereia, mas que para viver no fundo do oceano com sua amada terá que se livrar de sua alma(sombra), assim mediante ajuda de uma fenticeira se livra da sua própria sombra. A sua sombra não aceita isso, e vai viajar pelo mundo, mas sempre voltando quando faz aniversário de suas separação, proponde se reunirem em um novamente, mas sempre rejeitado pelo pescador.(este conto esta no livro O fantasma de Canteville e outras histórias, L&PM). Além do mais no folclore ludovicense,os adultos não permitem que as crianças brinquem com suas próprias sombras (sobretudo quando falta energia e a luz da vela transforma a sobre maior e mais visivel), alegando que as proprias sombras a atormentaram ao dormi. Curiosamente há um livro com o título: VON FRANZ, Marie-Louse, A Sombra e o Mal nos contos de fada, São Paulo: Paulus, 1985 (nunca li este livro , mas tenho em pdf). Sombre Tupã, que Abbeville chama de Tupane, n verdade era o som das trovoadas e que o colonizador tentou transformar em um Deus semelhante ao Deus-cristão, mas não nada mais do que o trovão para os índios, que inclusive esta palavra é uma onomatopeia do trovão. (vd: CASCUDO, Câmara. A geografia dos mitos brasileiros.)

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    1. poeta de papel, lindo isso. eu nao conheço esse conto do wild, vou procurar. obrigado pela tua observação arguta e pertinente.

      abraços. te gosto muito. gostei da conexão com os mitos. baita sacação

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