quinta-feira, 7 de junho de 2012

Janelas: aberturas para o mundo

Quando o personagem de Al Pacino, o tenente-coronel Frank Slade, em Perfume de Mulher, de 1992, dirigido por Martin Brest, convida a personagem Donna, interpretada por Gabrielle Anwar, para dançar tango, sendo ele cego, pedindo-lhe que confie nele, pois seus passos firmes, seguros, conduziriam a bela jovem a flutuar no salão, calmamente guiando seus passos, sentido seu aroma, passando graciosamente com suas mãos pelo belo corpo da jovem, levando-a sentir a firmeza de homem maduro que entendia o sentido da dança, vejo as janelas do mundo pelos olhos de Frank Slade, da mesma forma impávida como o cego Aderaldo, moonwalkman, olha para Chico César na canção A prosa impúrpura do Caicó. 

Existe um algo mais no olhar do personagem representado por Al Pacino. Seus passos, sua dança com a jovem Donna, são cadências sorventes da sonoridade do tango à medida que adentrava no âmago da vida, e da vida de Carlos Gardel com suas dores, angústias e afetos. Ao dançar o tango era como se vários Gardéis se incorporassem no dançarino, pois a intensidade do afeto dessa melodia exige um sentimento compungindo para poder senti-lo. Era como se ao dançar o personagem de Al Pacino entendesse cada frase, cada estrofe e conduzisse a jovem a bailar, porque somente bailando é possível disfarças as auguras da vida.

Mikhail Baryshnikov dizia que para viver é preciso dançar. Dançar é uma forma de absorção da vida através da corporeidade, e no entanto, um convite à própria vida, é quando o dançarino inverte a lógica da sobrevivência; no ato de dançar é ele quem dá as cartas, não a vida. Quando o tenente-coronel Frank Slade dança tango, mais um charuto de Gardel, que nunca se apaga no cemitério de Chacaritas, arredores de Buenos Aires, se acende. Alguém dorido como o personagem de Al Pacino, ainda que querendo se matar, se liga à vida pulsante do charuto de Gardel que teima em não apagar.        

Os olhos cegos do personagem de Al Pacino são os faróis da sensibilidade, seus passos, a conjugação da leveza disfarçante; a mesma que Fred Aster tantas vezes usou para driblar a vida no palco, a mesma que Garrincha usava para contornar os Joãos. Joãos, os marcadores das pernas tortas, são uma alegoria da antibeleza, do antigol, da antiarte, da antivida.

Enxergar a vida pelos olhos cegos do personagem de Al Pacino e do cego Aderaldo é um convite diário a enxergarmos a beleza da vida, mesmo quando se apresenta da forma mais insípida, dorida, adstringente. Os olhos cegos são janelas para o mundo, uma forma mui sutil de enxergar o que ninguém vê. São uma forma de abertura bem maior do que se imagina, bem mais enigmático e emblemático, bem mais astuto e sábio, pois é a forma que nós mesmos escolhemos, embora muitas vezes não queiramos ver. A forma como vemos as aberturas para o mundo depende das janelas que abrimos dentro de nós mesmos.

A vida se mostra de forma caleidoscópica. A literatura é um exemplo disso. Quando James Joyce e Machado de Assis, ao nunca saírem de suas cidades natais, falam dos desdobramentos dos sentidos, é uma forma de, pela literatura, abrirem suas janelas sobre o entendimento da existência.

Pedro Juan Gutierrez, em Trilogia suja de Havana, confunde autor e personagem numa narrativa vívida de pulsão e desejo, desejo inclusive de ultrapassar o mar azul do Caribe em busca de outras sensações para além da Havana, suja, rica e poética. A narrativa é um convite ao desejo, a vida que se apresenta de forma minimalista e maximizada ao mesmo tempo em cada canto e recôndito. A ilha clausura de Fidel obriga Pedro Juan a se inventar e reinventar o tempo todo, e exatamente dos grotões da exclusão e do isolamento nasce um enredo surpreendente. 

Invenção que Shakespeare imbuiu-se ao “criar” o amor moderno em Romeu e Julieta. Com o fim da Idade Média, leia-se, do invólucro seguro e salvífico da alma do pecado católico, do fim da magia e do encantamento da Europa, Shakespeare com suas janelas abertas para o mundo tenciona o olhar para um amor eros, próximo, imediato, frenético, possessivo, posto não ser mais possível esperar o fim dos tempos para o encontro com o amor verdadeiro, Deus. Naquele momento, o amor eros era a redenção para a desesperança, para a angústia, era um elo de ligação entre os mortais, era a imanescência ganhando espaço ante a ausência de futuro. Essa foi a janela de salvação de Shakespeare ante a caoticidade da vida, ele estava se reinventando. 

O amor entre duas pessoas sempre existiu, embora tenha sido Cristo a primeira pessoa a falar de amar ao próximo como a si mesmo, portanto Cristo é o inventor de um amor fraterno no sentido da dizibilidade e visibilidade de tal sentimento, mas o que Shakespeare reelaborava era o amor para o agora ante a incapacidade de lidar com o que a modernidade trazia: esperança e perigo ao mesmo tempo. Esperança e perigo tão bem encenada na novela Nova Heloísa, de Rousseau, ao retratar as cartas de amor entre o jovem Saint-Preux e sua namorada, Júlia. As cartas paulatinamente retratam as mudanças por que ela passava; de saudade; a euforia; insegurança e palidez. Era o próprio retrato do sentimento que a modernidade começava a causar nas pessoas, embora o que Rousseau defendesse fosse o amor verdadeiro, uma paixão sem limites, uma defesa de uma moralidade perdida e desgastada.  

O mesmo sentimento que o romantismo no final do século XVIII e todo o XIX reelabora como amor. Amor desmedido, amor que não se mede, amor que agonizava ante a crueza do iluminismo deísta, empiricista, altamente racionalizante, chegando às raias de negação do afeto e sentimento. O amor romântico era uma reação ao racionalismo exacerbado. 

A grande questão é que a vida é uma invenção. Como diria Ferreira Gullar: “se nós a inventamos para o bem, ela é boa, se para o mal, ela é ruim”. Às favas a quem disser que sabe exatamente o que é a vida e seu sentido. Se alguém soubesse perderia o sentido, se encerraria a busca. Ninguém sabe, ninguém sabe de nada, embora alguns teimem em atestar que sabem e detêm a verdade; por isso, tantas guerras, tantas mortes em nome dessa verdade. 

A vida se esconde nas coisas simples, na singeleza do farfalhar das árvores, numa melodia altissonante que de repente aturde nossos tímpanos, na pena dos escritores, nas dobras do tempo, nas lágrimas de um amor perdido e abandonado, na dança erotizada do tango conduzida pelos olhos abertos e que tudo via do personagem de Al Pacino cadenciada do tango, na esperança que se renova como forma de janelas: aberturas para o mundo.

Das janelas do carro vendo tudo em quadrado, Adriana Calcanhoto em Quadros imagina a vida em quadrado, confundindo tela e janela, remoto controle, qual controle? Pela janela da pousada singela e delicada que me encontro, num paraíso terreal, vejo o céu estrelado, sem luzes humanas artificiais, reinvento meu mundo, vejo a vida com novas cores: vívidas e pulsantes, como a intensidade do mar bravio que passa pela janela da pedra furada de Jericoacoara.    

Quem tem olhos de ver, veja... A vida não é como a enxergamos. Fechemos os olhos e abramos as janelas para o mundo.                                                  












4 comentários:

  1. Muito bonito, Henrique, e a maneira como alias a literatura, a música e o cinema nesta argumentação torna o tema e a abordagem mais especial, relembra o combustível e o real valor da arte.

    Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Vou compartilhar este texto, as pessoas tem que ter contato com este ponto de vista...

    ResponderExcluir
  3. querido sebastião, obrigado por compartilhar de tua opinião, agradeço tua sensibilidade. obrigado por divulgar meu texto

    ResponderExcluir
  4. Henrique, esse texto demonstra a tua sensibilidade. E em meu ponto de vista a grande sacada foi a relação Al Pacino (o seu personagem que ver por meio da dança e, não esqueçamos, por meio do olfato) e o cego Aderaldo (que ver por meio da rima e dos acordes de uma boa viola) vendo Chico César, pois em ambos também está a grande reinvenção do próprio Chico e de todo mundo ou apenas daqueles que como tu percebeste que esta música "A prosa púrpura do caicó" ,cuja a dicotomia chega a ser renitente, não deixa de celebrar a reinvenção, reinvenção como o olhar as avessas do Aderaldo (penso aqui o olhar as avessas como olhar pra dentro, pois o sujeito olha é pra fora dos seu olhos). Seria isso que ele ver no Chico - o eu dele - o que não está e nem ficar pronto, como diz a letra: "Relabucho, velório. Videogame oratório, High-cult simplório; Amor sem fim, desamor". Tudo da música um talvez... E o cego do Al Pacino!? esse é sego só pra fora, também ver pra dentro. Por meio do olfato e do pulsar das vibrações do tango de Gardel e do vai e vem da bela jovem de vestido que acho que era vermelho, mas que para ele era de todas as cores.


    P.S.: Meu caro, não pude mencionar todos que tu lançaste à mão em teu texto por força da falta de propriedade e da falta de tempo de ir atrás pra saber um pouco mais. PARABÉNS, MEU AMIGO.

    ResponderExcluir