quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Sincronicidades: da infância a Cabo Verde


Para Rômulo e Ramon, Tatiana Reis, Alberto Antero, Cláudio Ramos, Kaká Barbosa e Vera Duarte 


Em 19 de outubro de 2012 publiquei uma crônica sobre Cesária Évora (https://versura.blogspot.com/2012/10/cesaria-evora-doce-voz-de-cabo-verde.html).

 A crônica versa sobre como tomei contato a “doce voz de Cabo Verde”! Era criança, tinha entre 07 e 08 anos, quando, embalados pelas festas alvissareiras da minha casa, minha irmã Bete, a mais velha, sempre colocava na vitrola a música “Regresso”, cantada pela marrom Alcione, letra de Almicar Cabral, música de José Agostinho, depois regravada por Cesária.

Trinta e um (31) anos depois, já morando no Rio de Janeiro por conta do doutorado, ingressei num grupo de cultura popular por nome sugestivo de Mariocas: (maranhenses e cariocas), coordenado pelos gêmeos dançarinos Rômulo e Ramon, o mesmo que na minha adolescência assistira no Brasil Legal, programa de televisão comandado Regina Casé, sobre o reggae em São Luís.

Num dos preparativos de nossas apresentações, a companhia ensinava percussão para crianças do morro da Mangueira, no Centro Cultural Cartola, enquanto eu afinava o crivador no fogo, comecei a preparar a indumentária para dançar Jongo e tocar Tambor-de-Crioula. Ramon pediu que eu assistisse um documentário. Era exatamente sobre Cesária Évora. As lembranças me sobressaltaram.

Semanas depois fomos convidados a participar da celebração de convênios entre Cabo Verde e o Brasil na área de educação com a presença do presidente africano. O ano era 2005. O convênio estendia a integração entre os dois países e permitia mais entradas de estudantes do país-arquipélago no Brasil. Depois da celebração, houve uma grande festa da Universidade Santa Úrsula, na zona do sul do Rio, e tive a oportunidade de conversar com vários estudantes daquele país. 

Eu pensei que minhas relações com o país das dez ilhas no meio do Oceano Atlântico acabariam por aí. Ledo engano.

Treze anos (13) depois, pela insistência da amiga e colega de Departamento Tatiana Reis, comecei a me interessar pela literatura cabo-verdiana. Ela estudara o movimento intelectual conhecido por Claridosos, das décadas de 30 e 40 do século XX, que recebeu forte influência da literatura brasileira, notadamente da geração de 30 (José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, dentre outros), determinante para a ereção de um sentimento de caboverdianidade na literatura, com repercussões na identidade nacional e conseguinte emancipação política de Portugal na década de 60.

Lembrei-me que, no meu doutorado, quando estudei Trajano Galvão, Francisco Dias Carneiro e Antonio Marques, em meados do século XIX, tais autores bradaram uma ideia de um romance “tipicamente maranhense” tendo por ilação as influências culturais africanas. Foi o mote que encontrei para retomar algo que não havia aprofundado no doutorado e que há muito me interessava e me incomodava por ter abandonado. Quando a FAPEMA lançou o edital IECT (Economia Criativa), formulei uma proposta de pesquisa sobre literatura brasileira (notadamente a maranhense), tendo como fulcro central Trajano Galvão, Francisco Dias Carneiro e Antonio Marques Rodrigues e os PALOPS (Países lusófonos africanos: Cabo Verde, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe; deixei de fora Guiné Bissau por questões orçamentárias). O projeto se intitula Périplo Literário. Convidei Tatiana para compor a equipe de pesquisadores e demos início ao projeto.

Em julho de 2018 pedi a minha agente de viagens, Luzenir Farias, que comprasse minha passagem para Cabo Verde exatamente para esse mês por conta das minhas férias na Universidade, não queria que o projeto atrapalhasse as aulas. Passagens compradas, busquei um Airbnb no bairro Central de Praia, capital de Cabo Verde, Platêau, Centro histórico, coração da cidade. O proprietário da casa, Alberto.

Depois de três dias em Fortaleza esperando um voo em vão para Cabo Verde, a companhia aérea TACV me comunicou que não havia previsão de embarque e eu decidi retornar a São Luís completamente frustrado.

De volta a São Luís, retornei a Luzenir e solicitei a providencia de uma nova passagem antes de minha viagem para Moçambique, em janeiro de 2019, já que pelo projeto não poderia sobrepor o cronograma das viagens. Ela comprou para outubro de 2018. Assim foi feito.

Ao chegar em Praia, fui recebido no aeroporto por Alberto. No trajeto, me mostrou o apartamento que eu ficaria no Platêau, mas estava em reforma e, portanto, ficaria com ele em Achada de Santo Antônio. Alberto é irmão de Kaká Barbosa, um dos grandes escritores caboverdianos, membro da associação de escritores caboverdianos, ex-integrante da frente de libertação do país perante Portugal, correligionário do grande movimento dos PALOPS (países de língua portuguesa na África), liderado por Amilcar Cabral.

Por indicação de Tatiana, entrei em contato com Cláudio Ramos, funcionário do Patrimônio Histórico e Cultural, que tem seu escritório exatamente em Cidade Velha, antiga Ribeira Grande de Santiago. Cláudio me levou até Cidade Velha. Na chegada, fomos recebidos por uma grande baleia jubarte, bem em frente ao antigo porto do cais. Sentamos em um bar tendo por horizonte aquele imenso mar azul turquesa, as ondas quebrando nas pedras negras da praia, céu límpido, as vielas da antiga cidade por fundo, aquele cenário bucólico da cidade cinzeta, quase nunca chove, tombada como patrimônio histórico da humanidade, a visão de onde partiam os navios abarrotados de sujeitos escravizados além atlântico, tendo o Brasil como um dos destinos.

Peguei meu celular, coloquei no youtube a canção Regresso, cantada por Alcione. Estava ao lado de Claudio e quando chegou o trecho:

A chuva amiga mamãe velha
A chuva que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha
A ilha toda em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
Que a terra agora é mesmo o Cabo Verde
É tempestade que virou bonança


As lágrimas correram dos meus olhos. Ouviu-se um silêncio entre mim e Cláudio. A baleia seguiu sua viagem.

Depois disso, Cláudio começou a me mostrar a cidade, a antiga construção da vila feita pela Cia. do Comércio, que tinha como sucursais exatamente as Companhias de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, no século XVII, e depois da segunda Cia. do século XVIII, já na administração de Marques de Pombal. Foi estranho ver as imbricações entre Maranhão e Cidade Velha naquelas ruínas. O passado estava ali presente.

Tão emocionante quanto andar por aquelas vielas, foi conversar com os moradores, artesãos, agricultores, perceber nossas raízes, ser convidado para adentrar nas casas e tomar grogue, pinga, produzida da mesma forma desde o século XVII. Foi assim que meu amigo Cláudio me levou para a casa de seu amigo Francisco, o Chiquinho, um guia de turismo, estudioso da história de Cabo Verde e das relações transatlânticas, profundo conhecedor da região, e juntos tomamos uma garrafa inteira de grogue. À medida que conversávamos e bebíamos, nos sentíamos como grandes e velhos amigos e as conexões ficavam cada vez mais imbricadas. Falávamos como se estivéssemos matando saudades de um tempo que não nos lembramos, mas sabíamos que existiu. E quando nos despedimos, Chiquinho me abraçou e disse:

_ É muito bom te reencontrar, velho amigo!!! Antes de partir para o Brasil volte aqui, tem algo que eu preciso te mostrar e vais gostar de saber!!!!.... Cláudio olhou-me fixamente e não disse sequer uma palavra. Eu não voltei... Mas as palavras de Chiquinho engasgaram-me com o nó na garganta, como quem engole um guarda-chuva.        

No dia seguinte, fui à Tarrafal, outra ponta da ilha de Santiago, visitar o campo de concentração fascista onde entre as décadas de 30 e 60 foram presos cabo-verdianos, moçambicanos, guinenses e portugueses que lutaram contra o regime totalitário, notadamente os intelectuais, poetas, escritores. Naquela manhã insólita de domingo, eu era o único visitante naquele mausoléu de tortura, de paredes riscadas pelas mãos que, no passado, lutaram por liberdade, que sentiam o cheiro do mar tão próximo e exatamente pela localização de difícil acesso para lá foram levados. O mar que os trouxera era o mesmo que os afastara de tudo, do mundo, isolados naquela ilha. No lugar do passado de muitos sussurros, ais, gritos e mordaças, só o silêncio aturdia entre os muros altos cercados de arame farpado, de agora guaritas solitárias e vazias. As paredes desbotadas do tempo eram o painel das marcas das dores dos que por ali passaram e hoje são o suporte para os painéis informativos da história do lugar. Mas nenhum painel ilustrativo será capaz de narrar o espaço diminuto de uma solitária afastada da área central hoje tomada pela relva, cubículo claustrofóbico coberto com tela de zinco, chamado frigideira, cujo calor ultrapassava os 50 graus, destinados aos mais rebeldes.        

Ao voltar para Praia, Alberto já havia comprado minha passagem para Mindelo, capital da ilha de São Vicente, e reservado meu hotel para o prosseguimento da pesquisa. Quando o avião sobrevoou a ilha de São Vicente, me deparei com a mesma cena que vira quatro (04) anos antes durante meu processo terapêutico de cura interior e autodescoberta numa das sessões de hipnose (terapia de regressão). Numa delas, as últimas com o Drº Arquimedes, na clínica Eldorado, no bairro de mesmo nome em São Luís, vi-me sozinho no alto de uma montanha cinzenta avistando a cidade lá em baixo. As cenas são muito vívidas até hoje, sou capaz de descrever a grafofagia das montanhas, os traços, as marcas, a posição. Quando o avião riscou as montanhas da ilha de Santo Antão, vizinha a São Vicente, reconheci de imediato a montanha, a posição que me encontrara na hipnose de quatro (04) anos antes. Era o mesmo lugar.   

Ao chegar ao Café Royal, centro da cidade, ao lado do centro cultural Mindelo, vejo os retratos de cantores e cantoras cabo-verdianos que por lá passaram, havia sido um grande salão de festas, de apresentações culturais. Dentre as fotos, se destaca a de Cesária Évora.

Percorrendo as cenas citadinas, participando de rodas de capoeira – Mindelo é chamada de A Brasileirinha -, cheguei até o restaurante de Srº Luiz, antigo marinho mercante que rodara o mundo e adorava o Brasil. É um restaurante antigo, o mais antigo de Mindelo, com paredes salpicadas de fotografias, de reportagens e com assinaturas das pessoas que por lá passaram, de vários lugares do mundo, sem faltar a flâmula do Sporting Club de Lisboa, time do seu coração. Lá, conheci a roteirista de cinema Adriana Mattos, baiana, que estava em Mindelo, dentre outras coisas, pesquisando sobre Cesária Évora. Contou-me detalhes do que descobrira sobre Cesaria, sua história, tragédias pessoais, onde morara, suas disputas políticas. Era o período no Brasil entre os dois turnos das eleições presidenciais de 2018 e não faltou na nossa conversa a questão brasileira, nossas preocupações, acompanhado inclusive da análise de Srº Luiz.

No Centro Cultural Mindelo, depois de uma busca desesperada por todos os órgãos de cultura em Praia sobre a obra rara Hesperitanas, de José Lopes, datada de 1929, bem como Hespéridas, de Pedro Cardoso, de 1930, um funcionário foi em busca de alguém na cidade que a possuía e pediu-me que a fotografasse ali mesmo, pois precisava devolvê-la ao dono.

A obra retrata, dentre outras coisas, o imaginário caboverdiano sobre a lendária Atlântida, cidade retratada por Platão em Timeu e também em Critias, da qual os cabo-verdianos se dizem herdeiros. A mitologia cabo-verdiana atesta que as dez ilhas são exatamente um dos pontos de refúgio dos atlantes que sobreviveram a hecatombe, o afundamento, e que os gregos, milhares de anos depois, teriam transformado nos jardins das hespérides, a morada das ninfas, situado às margens do rio Oceano, guardado por uma serpente, que simboliza a transição entre a noite e o dia. Ao conversar com moradores de Tarrafal, e também com os de Mindelo, muitos conheciam o mito e comecei a me interessar pelo assunto. Passei a devorar a obra de Pedro Cardoso e José Lopes e escrever sobre o assunto. 

Quando voltei à Praia, encontrei-me com Kaká Barbosa e o entrevistei sobre literatura Cabo-verdiana e, em seguida, com Vera Duarte, outra grande escritora, no café Nho Eugênio. Quando comecei a conversar com Vera sobre o que descobrira em Mindelo, ela abriu o sorriso e disse-me que o texto que enviaria para a coletânea qual eu e Tatiana estamos organizando e que ela é uma das convidadas é exatamente sobre a relação entre Cabo Verde e a Atlântida.

De volta ao apartamento, Alberto perguntou-me a minha impressão sobre Mindelo. Quando comecei a relatar as “coincidências”, sincronicidades com Cesária Évora ele abriu o sorriso, levou-me até o quarto onde eu estava hospedado e disse-me num sotaque caboverdiano:

_ “Meu caro amigo Henrique, este apartamento que ora estais é exatamente o mesmo que Cesária Évora ficava todas às vezes que vinha até a capital. Éramos grandes amigos, bem como ela de Kaká, meu irmão, e ela adorava ficar aqui hospedada". 

Quando, em Mindelo, Adriana Mattos me perguntou o que eu fazia ali e comecei a explicar da pesquisa, abri o celular e comecei a ler para ela a crônica: Cesária Évora: a doce voz de Cabo Verde. Perguntei que dia era aquele, Adriana respondeu: _ 19 de outubro.

Exatamente a mesma data em que, 06 anos antes, publiquei a crônica.          

6 comentários:

  1. Meu mestre Henrique Borralho,
    O mar azul por onde a baleia jubarte transitava veio até meus olhos. Minhas lágrimas tornavam opaca a minha visão. Foi difícil ler tudo. Uma mistura de estar nos cenários por ti descritos, na exuberância das históricas emoções, no "silêncio" ao dizer o que a palavra se recuava ao tentar dizer o que não lhe cabia. Que alívio para a alma ter lido tua crônica. Que beleza!

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    1. Que bom que gostaste Everaldo. Fico feliz que a crônica tenha te tocado. Para mim foi uma experiência inesquecível e incrível. Abraços

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  2. Que maravilha amor.. que bom ler essa tua experiência tão fantástica����

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    1. Que bom que gostaste amor. Fico feliz que tenha apreciado a leitura. Fazia tempo que não escrevia

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