domingo, 13 de dezembro de 2015

Superando a 3ª dimensão

Vilém Flusser no livro Pós-História, afirma: “o nosso progresso é uma farsa. A vacuidade debaixo dos nossos pés não é barroca. O que perdemos não é a fé nos dogmas: perdemos a fé em nós mesmos” (2011, p. 20). Como é possível restaurar tal confiança, se é que é possível? A resposta parece estar nos nossos paradigmas, todos construídos em torno da dicotomia “eu e o outro”, como pares antitéticos, análogos. É bem verdade que, do ponto de ser e do ente, é possível definir o segundo, segundo Sartre, mas não o primeiro, sendo este uma invenção, uma construção, uma compreensão.
A existência do ente implica uma abertura ontológica, já que só é possível o EU a partir do OUTRO, logo, eu e outro não são entidades estanques, separadas, mas conectadas, interligadas. Como resolver então o problema da subjetividade, das escolhas, das decisões, dos julgamentos? Existe sim uma entidade ontológica, individual, gnosiológica chamada de individualidade, existência singular, mas não está descolada de outras existências, pois, como já enunciado, a capacidade de percepção do ser se dá a partir da existência de outro ser.
Então, a questão se volta para a cissiparidade dos vários “eus” e os outros construídos e alimentados como se fossem completamente abastardados, quando, no fundo, não são. A construção da cognominada subjetividade é feita pari passu à observância de outras, mas com, e não anti.
A fragmentação, o desvio do princípio da integridade, do holismo, foi e ainda é um projeto a ser vencido, sobretudo quando, tomando por base o axioma em Flusser, a condição humana está repleta da vacuidade. Então, por que construir um paradigma pautado numa ideia de integração humana, quando as evidências apontam exatamente o contrário, dentre elas, Auschwitz? Exatamente pela existência de Auschwitz. Tal ocorrido é a ausência de integração, o produto final de um modelo de desarticulação humana e de construção de um protótipo de racionalidade autoritária e burocrática a serviço de um sistema, tal como o capitalismo.
O que temos experimentado até hoje são sucessões de modelos de existências humanas calcadas na dicotomia entre a integralidade da existência e as possibilidades infinitas dessas. A separação entre as diversas possibilidades existenciais, cujo ápice foi a segmentação entre a humanidade e a natureza, nos legou para o campo das incertezas, do sofrimento, das angústias porque não conseguíamos ver, tangenciar a saída para o impasse, para a existência da felicidade plena, para o fim do sofrimento e da desigualdade humana.
Uma das questões da felicidade repousa sobre o princípio da ideia da permanência do sofrimento alheio, ou seja, ainda que alguém se diga feliz, ao observar qualquer resquício de sofrimento existente, através das guerras, fomes, desigualdades, injustiças, doenças, a felicidade perde seu vigor, pois passa a ressoar como egoísmo um princípio de gozo individualizado sem se importar com o que acontece alhures.
Ainda que ideais e ou utopias como felicidade, paz, igualdade soem como discursos telúricos, messiânicos, escatológicos, salvacionistas, o fato de a discussão disto ser ou não uma utopia em si já traz uma inflexão: não conseguimos, ainda que tenha sido uma invenção, nos desvencilhar da imagem, promessa de igualdade e felicidade geral. A pergunta é: Por quê?  A resposta, cada vez mais convincente para muitos, ignorada cada vez mais para outros, é porque, enquanto houver infelicidade, sofrimento, a felicidade de quem quer que seja não será plena, apenas circunstancial, porque todos estamos interconectados, ligados, logo o sofrimento de outro é meu sofrimento, por extensão. E que se diga de passagem que não me refiro a uma noção impossível de completa igualdade, no entanto, os disparates, o tamanho do fosso entre ricos e pobres, a violência, o nosso grau de injustiça, opressões, massacres, genocídios, guerras, são características de uma civilização que tem a barbárie como horizonte e princípio, quer dizer, qualquer projeto de igualdade e fraternidade soa não mais como démodé ou piegas, mas como quimera, no sentido infantil da palavra. É como se a natureza humana fosse, em sua essência, violenta por condição intrínseca, e não como opção.
A 3ª dimensão, ou o paradigma da separação, até hoje nos levou a enxergar o mundo como condicionantes binários, do tipo: espaço/tempo; vida/morte; felicidade/infelicidade; sucesso/fracasso; juventude/velhice; realidade/ficção, pensamento/afeto, dentre outros elementos, porque assim a cultura, ainda que tenha avançado em termos de conhecimento, não conseguiu superar o principal obstáculo: a fragmentação. Ela é a principal razão e a origem de todos os outros problemas e nos impede de atingirmos a emancipação e a clarividência.
Desta feita, assume seu papel o caos, ou a criatividade do cosmo, para nos fazer enxergar que até o caos é ordenado, ou seja, há um sentido por detrás da suposta não ordem. Já poderíamos ter avançado na dualidade matéria/antimáteria, dedução/intuição, ciência versus religare (relegere, releitura), ciências humanas/naturais, uno/múltiplo. A nossa incapacidade de enxergar o quanto de múltiplo somos unos e o uno é múltiplo é gerada pela percepção de que a matéria, provada e testada, é a única validade para qualquer princípio de conhecimento, logo de veracidade. Por consequência, tudo deriva disso: a tecnologia, a medicina, a cultura, o conhecimento são movidos por axiomas alicerçados nesta perspectiva. A cultura nos diz quem somos e para onde devemos enxergar e conceber o mundo.
Não existe limite, tudo é potência, tudo é, tudo é possível se o véu da fragmentação for removido. Mesmo com todos os avanços da Neurociência, da Física Quântica, Mecânica Quântica, Filosofia Clínica e um conjunto de novos conhecimentos afirmando o poder da mente, a capacidade desta de interferir na matéria tem sido suficiente para demover a ideia de o mundo não ser como se apresenta, e sim porque, de tal forma, nós o concebemos. O mundo se molda “à nossa realidade”.
Já deveríamos ter compreendido o papel do DNA e o que de fato ele é para além do já pronunciado pela biologia: uma estrutura aberta, regida por uma frequência sonora emitida pelo nosso cérebro, ou seja, temos em nós mesmos as chaves para descobertas e curas de todas as doenças, bem como a ampliação do corpo humano, consequentemente, da mente.
O próprio corpo humano já deveria ter sido compreendido de uma forma bem mais ampla e não fechada. Os usos e potencialidades dele ainda engatinham porque reincidentemente julgamos sermos limitados, presos a uma dimensão espaço/tempo. Nem mesmo a Física Quântica provando que toda massa é constituída de energia e que no núcleo da matéria a energia está e não está ao mesmo tempo, condensando e se descondensando, tem sido suficiente para nos lançar à aventura de transposição espaço/tempo, exatamente por ainda acharmos que a matéria é um dado estático, definitivo e intransponível. Serão necessários os experimentos com acelerador de partículas e com o Bóson de Higgs para descobrirmos o que intuitivamente já sabíamos: existe um campo de energia presente em todo o universo e tal campo está presente em todas as coisas.
Essa é uma das razões para aquilo que Jung chamou de a grande revolução, quando enfim conseguirmos unificar inconsciente e consciente. Claro, ego e superego até hoje não permitem tal aproximação porque não concebemos uma vida que nos escape a uma tratativa sem controle, a um mundo aparentemente sem sentido.
O que é ter sentido? Qual tem sido o sentido dessa vida fragmentada alimentada pelos noticiários, em que nada faz sentido, consubstanciada pelas informações sobre as guerras, fome e catástrofes? Até quando nossos egos estarão no controle de tudo? Qual o medo de enxergar o outro lado da cortina? Aliás, qual a vinculação entre ego e medo? O medo não é a incerteza do controle?
Quando então vamos superar essa dicotomia reinante na 3ª dimensão? Quando abandonarmos o paradigma da fragmentação, do isolamento e começarmos a enxergar a enorme rede existente no universo, sobretudo entre nós. Não existe um EU sem o OUTRO porque não existe um OUTRO, existe um EU em todos, porque todos os OUTROS são EUS como todo EU é o OUTRO. Isso vale para as relações sociais, bem como para a natureza, bem como para o Universo. O universo não é fragmentado, logo, tudo o que deriva dele, ou seja, o todo, pois nada inexiste ou existe fora do UM. Assim, não existe animal qual não faça parte da existência humana, árvore, rio, vulcão, pedra, nuvem, larva, poeira, vírus, bactéria, pois tudo deriva do UM, do princípio, da fonte.
Até aquilo que desvia da fonte é fonte, pois não poderia existir em si mesmo. Até o que a princípio não faz sentido tem sentido, pois não existe nada sem sentido. Ao atribuir um não sentido este já passou a tê-lo.
As teorias, filosofias ou quaisquer modelos ou princípios explicativos que construímos ou atribuímos significados são as formas como nos posicionamos diante do que existe. Tudo é a forma como nos colocamos ou enxergamos diante daquilo que é. Nenhuma teoria é fora do que é. Nada está fora do que é, nada não existe. A nossa principal crise é de consciência sobre quem somos.
Quando superarmos a fragmentação, então descobriremos a unimultiplicidade, ou seja, a capacidade existencial para além da matéria, cognominada de pentadimensionalidade, um conceito mais elaborado daquilo que Einstein denominou de relatividade. Existimos simultaneamente em realidades paralelas, separadas/unidas/juntas por sintonias distintas. Quer dizer, se ultrapassarmos a 3ª dimensão, poderíamos, inclusive, conscientemente, superar a prisão do tempo, que é um dado da relação espaço/matéria, avançar em outros mundos paralelos, outros cosmos, outras realidades.
Por que não conseguimos, então? Por conta da nossa frequência. O que gera esta frequência? A forma como encaramos o mundo. Se mudarmos o olhar, mudaremos nossa frequência. A forma como enxergamos o mundo, limitando a conceber o que existe e o que não existe determina a frequência, logo, a realidade em que nos encontramos. E que fique claro que o arcabouço de nossa cultura (ciência, arte, religião, educação, política, economia etc) é determinante para condicionar nosso olhar.
Mas, onde nasce a fragmentação? Ela é consequência ou é a origem? As duas ao mesmo tempo. A fragmentação é fruto de algo anterior, mas uma vez sendo, passa a originar um conjunto de relações que levam até ela. A origem de tudo é a falta de amor. É o amor que constrói e que dá sentido a tudo, inclusive a qualquer criação. Logo, ausência de amor é negação da criação.
O amor é a mais poderosa energia criadora que existe. Quando não há amor então tudo se fragmenta porque as coisas começam a ser concebidas em si mesmas e não enquanto conexas. Logo, o não amor é o distanciamento da fonte, daquilo é.
Quando começarmos a vibrar no amor, vamos sentir os nossos espaços, ou seja, nosso empoderamento na busca de nossas potências.
Vilém Flusser estava errado? Não, ele apontou como chegamos até aqui e como estamos. Para voltarmos a acreditar em nos mesmos, é preciso enxergar o outro, quer dizer o Eu, com amor.

4 comentários:

  1. olá Henrique,saudades das suas majestosas aulas de história. Estou no período das minhas ferias e gostaria de algumas sugestões de leitura, tais como: história da civilização americana, história da ditadura militar no Brasil e Guerra Fria. Pela indicação.

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    1. Oi. não deixaste teu nome. mas me envia um e-mail para eu te fazer as indicações. abraços

      jh_depaula@yahoo.com.br

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