segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Sobre a prepotência ocidental e os atentados ao Charlie Hebdo


TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 


http://www.pensarsa.com.br/sobre-a-prepotencia-ocidental-e-os-atentados-ao-charlie-hebdo/




O mundo continua estarrecido com os atos extremistas dos terroristas que atacaram o jornal francês Charlie Hebdo e agora o jornal Alemão Hamburger Morgenpost queimando-o, ainda bem que sem vítimas. Quando ocorreu o atentado em 11 de setembro de 2001 o mundo ocidental voltou seus olhos de ódio para Osama Bin Laden sem se questionar o porquê de tal sentimento. Em fins da década de 70 do século XX os USA haviam equipado a Al-Qaeda municiando este grupo que no futuro seria cognominado de terrorista contra a presença Soviética no Afeganistão.

Nada justifica um ato de tamanha insanidade como matar 12 jornalistas num ato de extrema irracionalidade, não se pode revidar com morte o humor de uma charge. No entanto, há que se questionar os limites da crítica jornalística e chargista, afinal, as charges não apenas debochavam do profeta Maomé como o humilhavam, e nisso nós ocidentais somos expert em reivindicar o princípio de respeito e liberdade de expressão, inclusive religiosa, ainda que na prática não façamos. Essa postura francesa do Charlie Hebdo não nasceu com eles e suas raízes remontam ao nascimento do Ocidente.

Até o advento do Renascimento o grupo que no futuro seria cognominado de mundo ocidental era sucursal da civilização islâmica, dominando a península ibérica, tendo inventado o astrolábio, fazendo cirurgias cranianas, com uma literatura fantástica, um desenvolvimento cultural extraordinário antes da guinada para o extremismo xiita. O processo de divisão interna da civilização islâmica criou uma disputa acirrada pelo controle das regiões e o aparecimento de uma prática e discurso ultra fanático.

Acontece que o Ocidente estigmatizou o Oriente colocando-o como símbolo antitético, um referente não apenas a não ser seguido, como eliminado. Os elementos constitutivos do Oriente, dentre eles a religião, passaram paulatinamente a ser perseguidos por aquilo que o Ocidente elegeu como símbolo de civilização e progresso, a razão instrumental ocidental.

A razão instrumental ocidental, tendo também como vórtice de negação o extremismo da baixa idade média, cuja presença onipresente do Diabo preenchia o imaginário dos europeus, começou a eliminar do processo de construção da memória do pensamento ocidental a religião, como se os gregos, pilares deste princípio, não fossem extremamente religiosos, bem como os romanos. Ou seja, na construção do Ocidente capsularam Grécia e Roma como ícones da cultura ocidental, olvidando o papel da religião, ou pelo menos deslocando seu significado.

Daí pra frente já sabemos o final da história: séculos ao fio estereotipamos tudo que não tivesse como parâmetro o modo da razão instrumental ocidental de pensar, legando essas circunstâncias como “atrasadas”, “incivilizadas”. Usamos inclusive a superioridade ocidental para escravizar a África, para neocolonizar a mesma África e a Ásia, para criar o estado de Israel por suas vinculações com o capital ocidental, sobretudo inglês e estadunidense negando os direitos dos estados palestinos, para apoiar golpes militares na África e na Ásia, para vendermos armas para terroristas islâmicos, para destituir revoluções socialistas, como em Angola e equipar grupo de extrema direita como o MPLA, ou seja, bárbaros são os outros, são todos aqueles que não defendem nossas bandeiras, que se colocam numa perspectiva antagônica ao princípio régio ocidental de liberdade, igualdade e fraternidade. Quando o Ocidente foi livre, igualitário e fraterno?

O princípio da ação provoca uma reação. Quando a Al-Qaeda, naquele ato insano de explodir as torres gêmeas do World Trade Center chocou o mundo, os Estados Unidos responderam com uma perseguição atroz a Osama Bin Laden em pleno solo afegão e continuou a caça por dez anos. Depois, não satisfeito, a besta fera que responde pelo nome de George Walker Bush, inventou a maior mentira da história afirmando que havia encontrado armas de destruição em massa no Iraque matando Saddam Hussein e prometendo equilíbrio aquele país. Vimos o final da história.  

O assassinato dos 12 jornalistas franceses se justifica? Em hipótese alguma, foi um ato de extrema radicalidade, insanidade, de ataque à liberdade de expressão, ao jornalismo enquanto esteio de crítica aos que não possuem vozes e mecanismos de reivindicação de seus direitos. Lamento e fico consternado com as vítimas, mas me questiono se por vezes a própria imprensa não tem sido um veículo de propagação e reprodução de estereótipos, a islamofobia,  aumentando a insanidade dos extremistas.  

No caso do Charlie Hebdo também havia crítica ao cristianismo, mas a imprensa em geral faz crítica ao imperialismo francês? Ao imperialismo que saqueou as obras de arte egípcia? Ao que fizeram com a Argélia? Ao preconceito de cada dia aos pieds noir que vivem nos arredores de Paris? Quanto da riqueza francesa é fruto da exploração de suas ex-colônias? O ódio religioso existente em radicais islâmicos também foi nutrido pelo período de exploração econômica e política, sem falar na territorial.

Por outro lado, é claro que existe uma clara intensão dos radicais extremistas islâmicos em dividir o mundo, de propagar o ódio, de segmentar islâmicos e islâmicos, muçulmanos e judeus, muçulmanos e cristãos, instituir a insegurança como prática social, estabelecer o pânico, a paúra, etc, mas a minha pergunta é: qual a parcela do mundo Ocidental nisso?

É claro que o Estado Islâmico que vem ameaçando o Iraque (cujo EUA prometeu salvar), a Síria, e vários países, é uma ameaça global porque fere qualquer princípio de racionalidade e tem que ser combatido, mas quando afinal vamos entender de fato os princípios religiosos de outros povos, entender a diversidade cultural que tanto o mundo ocidental propaga, conviver com a diversidade?

Com todo o risco de ser não compreendido e duramente criticado, e que fique claro que não apoio nenhum ato de terrorismo ou de insanidade, as charges do Charlie Hebdo ao profeta Maomé são ofensivas, grosseiras e desrespeitosas. Vamos impor limites à imprensa, controlar o seu conteúdo? Certamente não, mas precisamos discutir responsabilidades. Nada está acima de tudo, nem mesmo o humor do Charlie Hebdo.


Termino com uma mensagem de solidariedade aos parentes, amigos dos chargistas. Espero que isso nunca mais se repita, que ninguém tire a vida de outrem por conta de uma piada, mas que passemos a criticar também os atos nossos terroristas de cada dia. Não se mata apenas com uma pistola automática, com bombas, mas também com exploração econômica, política, territorial, com preconceitos e estereótipos.       

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