sábado, 6 de setembro de 2014

Tempos Difíceis: o caso do racismo ao goleiro Aranha, do Santos Futebol Clube



                                                                                                                    Álvaro Moreira

No dia 28 de agosto em Porto Alegre, o goleiro Aranha, do Santos Futebol Clube, sofreu repetidas ofensas e demonstrações de racismo expressadas pela palavra “macaco”, cometidas por indivíduos da torcida do Grêmio. Aqui não irei me aprofundar no fato em si, mas em algumas repercussões post factum.

O incrível jornalista esportivo dos canais ESPN (que como muitos dos seus colegas de emissora, têm a perspicaz habilidade de fazer análises sobre futebol, se debruçando e fazendo o link entre sociedade, política e economia), Mauro Cezar Pereira, no seu não menos fantástico blog[1] nos alerta sobre algumas questões. 1) Existe uma certa conformidade generalizada com o ocorrido, esse ignóbil fato é materializado na súmula do jogo, o árbitro Wilton Pereira Sampaio ignora o que aconteceu, as queixas dos jogadores, enfatizando outros contratempos da partida e omitindo a animalesca atitude de alguns gremistas. 2) Como se o que aconteceu em campo não fosse algo suficientemente nocivo, alguns gremistas a posteriori postam em redes sociais como o Twitter frases como: “tem que queimar essa Aranha macaco catimbeiro!”, evidenciando um problema sintomático.

Contudo, o que se tornou a gota d’água para expor o que eu penso e sinto por meio desse texto, foi a coletiva de imprensa transmitida no dia 05 de setembro da torcedora Patrícia Moreira, uma das pessoas flagradas durante o ato racista, e a mais evidenciada da gravação na arquibancada. Ao contrário de certas opiniões defendidas na internet, eu não acho que a torcedora deva ser julgada e pagar pena... sozinha. Ela é uma cidadã em sua maioridade e deve ser responsável pelos seus atos, bem como todas as pessoas que vão ao estádio ou qualquer lugar para proferirem palavras racistas, ou outrora o fizeram. Estamos cansados desse discurso rasteiro que diz: “Ela não é racista, tem amigos negros”; “eu não sou racista, minha empregada negra, tem um quarto só pra ela nos fundos da casa”; “eu não sou racista, eu olho um negro e não corro”.

Não posso deixar de fazer referência à obra clássica para o entendimento do Brasil, escrita na primeira metade do século XX, Casa grande e Senzala, onde Gilberto Freyre, embora inovador no método de pesquisa e no uso de fontes até então não utilizadas, “suaviza” muito a relação de dominância entre a classe senhorial e seus escravos, ou entre brancos e negros, dando uma perspectiva de quase uma “harmonia perfeita” na ordem escravocrata. Essa falsa concepção de um Brasil livre de tensões interaciais se perpetuou até a atualidade.

Entendemos melhor esse fenômeno quando lemos o sociólogo Antônio Guimarães, que diz que o racismo no Brasil é mais difícil de ser identificado, pois é um racismo “assimilacionista”, que nega as diferenças e conota uma falsa ideia de sociedade homogênea (muitas vezes “nas entrelinhas” disfarçado), diferente do “jim crow” a segregação racial dos Estados Unidos. Ora, o Brasil é um país conservador, racista, homofóbico, abaixo o mito da igualdade racial e paraíso na terra! Estamos muito bem obrigado! Será?

Dito isto, vamos a algumas colocações no mínimo curiosas da entrevista. Não posso me furtar de explicitar que tive a impressão de que a torcedora estava mais preocupada com a situação do Grêmio, excluído da Copa do Brasil por decisão do STJD, do que sua própria situação perante o goleiro Aranha – o que é um absurdo! Quero aqui expor também minha ojeriza a sentimentos aflorados em demasia por clubes de futebol, que muitas vezes causam violência entre torcidas, resultando em atos de ignorância.

As falas do advogado Alexandre Rossato são ainda mais curiosas, eu destaquei algumas para que o leitor analise comigo: “A exposição dela não foi racista, de forma verdadeira”, e "Macaco, no contexto dentro do jogo, não se tornou racista. Isso se torna um xingamento dentro do futebol. Uma das expressões dentro do futebol. As próprias mães dos árbitros são xingadas historicamente dentro do futebol". É legitimo o direito da torcedora de defesa perante a lei e lamentável as ameaças que alega sofrer, todavia, o fato é muito claro, o que aconteceu foi uma manifestação racista com a intenção de ferir a moral de um indivíduo negro.

Dia 19 de junho durante o programa da SPORTV, “Extraordinários”, o jornalista Eduardo Bueno, gremista por coincidência, se dirige à Região Nordeste como “aquela bosta” citando a empreitada produção açucareira pelos holandeses durante o período colonial, causando muita repercussão. Apesar do dito bom humor do programa, eu não vi uma retratação, e o pior, ao sofrer pressão dos nordestinos, o jornalista convidou quem o criticou a ler 40 livros sobre o nordeste para, então, poder discutir com o mesmo.

Eu não li 40 livros sobre o nordeste, contudo, me irritei com a declaração e principalmente com a falta de preocupação em notar a conjuntura de preconceito que o nordestino sofre, muitas vezes, por indivíduos das Regiões Sul e Sudeste, em redes sociais ou, “à queima roupa”. Já disseram caros leitores: “Nordestino não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!” Eduardo Bueno não teve sensibilidade em reconhecer que a expressão utilizada foi no mínimo “sofrível”.

Esse texto simplório, entretanto, sincero, é uma tentativa de externar minha revolta contra fatos que estão simplesmente mais corriqueiros, e convido as pessoas com senso crítico mais apurado, que não deixem esses fatos se tornar legitimados, denunciem preconceito, racismo ou quaisquer tipos discriminação.

Estamos vivendo tempos difíceis. O atual período de eleição é terreno fértil para fundamentalismos religiosos, principalmente contra a causa LGBT, que é extremamente nobre e legitima. Cito as palavras de uma pessoa muito especial que há um tempo me acompanha: “O Brasil está na contramão do mundo”, enquanto nossos “hermanos” argentinos e uruguaios já aprovaram o chamado “matrimonio igualitário”, equiparando o casamento de homossexuais ao casamento de heterossexuais, setores da sociedade brasileira insistem de forma ignorante em dizer que homossexualidade é um “comportamento”, “doença”, e pode ser curada.

O historiador Leandro Karnal, na exposição oral Confrontos Religiosos e Fundamentalismos, no programa Café Filosófico da TV Cultura, usa exatamente essa expressão, porque o fundamentalismo está inserido em todas as religiões, não somente no Islamismo como o Ocidente retrata. Por exemplo, o argumento utilizado por alguns fundamentalistas dos Estados Unidos contra o casamento homoafetivo, é que, se esta relação se pautar apenas no amor, e não somente na união “natural” entre homem e mulher, a família será destruída. Leandro Karnal, sensatamente retruca: “Eu nunca entendi isso exatamente, como a minha família será destruída se meu vizinho for gay.”

Frases como: “Mas sempre foi assim”, ou “As coisas são assim mesmo”, são um desserviço à sociedade, o ser humano é dotado de capacidade de mudança, e para melhor. No século XIX, a corrente do “racismo cientifico” demonizava a miscigenação e acreditava que através do estudo de crânios de pessoas negras era possível perceber o quanto estas eram propensas a serem criminosas. A sociedade evoluiu em relação a esse aspecto, contudo, não podemos ficar de braços cruzados contemplando cidadãos marginalizados por sua cor, orientação sexual, crença, ou condição econômica. SIM! SOU BRASILEIRO, NORDESTINO, MESTIÇO, SOU UM SER HUMANO E SOU CONTRA RACISMO, DISCRIMINAÇÃO E A HOMOFOBIA.



4 comentários:

  1. "Preconceito" uma palavra que tem um poder ao qual tem o poder de feri muito alem das ofensas direcionadas. Uma pessoa que sofre qualquer tipo de represaria sofre danos jamais imagináveis pelo agressor. Ofender uma pessoa seja de qual formar for pra mim vai de uma ignorância, e um de um baixo ego individual inexplicável, chamar uma pessoa de macaco, desmerecer um homossexual, ou qualquer pessoa pela sua opção de escolha de como viver, e o que ser, eu apenas dou rizada, e tenho pena deste ser.
    Na vida termos o direito de ser felizes, não importa como, o que importa é ser feliz, quem são estes que se julgam "deus" para julgar outra pessoal, uma pessoa que ofende a outra, muitas vezes é porque não tem coragem de se assumir em algo.
    Então devemos respeitar mas uma ao outro, devemos primeiramente nos respeitar e ter a humildade de aceitar o nosso próximo.
    Uma vez eu ouvir um senhor dizer o seguinte: "Se eu estiver passeando com a minha filha em um shopping, num parque, em uma praia, e ver dois rapazes se beijando, fazendo caricias um ao outro, o que eu direi a ela". Eu parei e pensei por um lado ele tem razão, mas após alguns minutos, eu pensei rapaz esse homem é um louco, ele deve ter a simplicidade de chegar e fala a sua filha(o), ta vendo aquele casal masculino, eles estão sendo felizes, independente de ser dois garotos o importante é está feliz, sendo com um homem sendo com uma mulher, não devemos ter nada contra ninguém, todo mundo precisa de todo mundo, ninguém é melhor do que ninguém. "A felicidade está onde menos imaginamos, e vem quando menos esperamos, não se engane com dinheiro, f e l i c i d a d e....... não se vende, nem se compra se conquistar".
    post: Matheus

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    1. Matheus, a luta contra qualquer forma de discriminação é uma tarefa árdua e incansável. Não podemos desistir enquanto houver qualquer forma de discriminação.

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  2. Iertes Meyre Gondim Pinheiro - Promotora de Justiça7 de setembro de 2014 19:40

    Não obstante seja a vida, o bem mais precioso do ser humano, este há de caminhar pari passu com a liberdade de se viver dignamente e com a liberdade de expressão, esta, mitigada no limite do exercício do respeito ao outro. Não adianta somente criminalizar a conduta do racismo, como o faz a Lei 7716 de 5 de janeiro de 1989, que pune, com penas de até cinco anos de reclusão, além das multas, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, de cor, etnia, religião ou procedência nacional, o que se deve efetivamente trabalhar cirurgicamente, é a mentalidade e cultura humana, que, induzida a erro histórico, muitas vezes não consegue superar equivocados conceitos e “pré”conceitos, concebidos e arraigados em sua forma uterina, o que demanda tempo e paciência para o alcance de uma mudança de mentalidade efetiva. O assunto em pauta macula a história da humanidade, e projetam bem a imagem do mundo convulsionado, em que vivemos, agravado, sobretudo pela via sensível e rápida de comunicação, atingindo qualquer lugar, em segundos. Artigos como o seu Álvaro Neto, e outras atitudes cidadãs, contribuem para uma mudança histórica, obrigando o homem a repensar a sociedade e suas relações. Parabéns pelo artigo.

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    1. Iertes, concordo plenamente. A lei tem um caráter pedagógico, um instrumentalização em favor de um caráter educativo, mas somente a lei não basta, aliás, nem seria necessária se fossemos elovuidos e despossuídos de preconceito e ignorancia. Até lá, temos muito o que fazer.

      obrigado pela participação

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