quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Colégio Almirante Tamandaré: 23 anos depois

Alguém pode medir um sonho de um adolescente? Podem mensurar os passos púberes de quem durante 03 anos percorreu o mesmo caminho em direção a um espaço de sociabilidade, de construção de conhecimento e de perspectivas de futuro? Talvez não, mas com certeza pode-se aferir a frustração ao reencontrar esse mesmo espaço 23 anos depois quase decadente.

A escola não é apenas um dos lugares do saber, ainda que um saber formal, institucionalizado, como também de relações sentimentais, afetivas, de afirmação identitária individual e coletiva, afinal, não existe escola desarticulada com a sociedade, pelo menos não deveria.

A escola é um espaço de mediação entre a transmissão de conhecimento e a elaboração de outros, de construção de significados e de resignificação de símbolos culturais, de construção e desconstrução de heranças tradicionais, de leituras do mundo, de problematização de valores e verdades introjetados. 

Por tudo isso e muito mais, ainda que não ocupe mais o lugar sacralizado dantes, ainda é um espaço importante porque medeia as conjunções entre um saber instrumental e as características dos indivíduos que por ela passam, quer sejam professores, pedagogos, técnicos, auxiliares, serventes, alunos e comunidades. 

Por ser tal lugar espera-se que a escola ocupe não apenas o simbólico, mas o prático e o efetivo nas vivencias das pessoas. Mas não é assim.

Eu fiz ensino médio, à época se chamava de segundo grau, na Escola Pública Almirante Tamandaré, no bairro da Cohab. Trata-se de uma escola grande, importante para esse bairro e para a cidade. De lá saíram grandes jogadores de futsal, de volley, havia importantes feiras de ciências descobrindo cientistas em suas tenras idades, grandes professores. Havia uma dinâmica social importante com uma incipiente e jovem biblioteca, densidade de leitura de projetos, como teatro, palestras,  etc.

Foi lá que me inteirei da atividade politica conhecendo a antiga UMES (União Municipal de Estudantes Secundaristas), fundamental para a minha tomada de consciência politica de esquerda, até hoje. Foi lá que comecei a jogar volley e que decidi fazer história, dentre outras razões assistindo as aulas do Professor Alvaro. 

Certa vez ele perguntou quem havia escrito a peça Édipo Rei? Eu de chofre respondi: Sófocles. Ganhei um conjunto de livros de literatura e de historia. Começava meu interesse pela literatura. Foi lá que li Cristianismo e Marxismo, de Frei Betto e que cometi um ato grave: roubei, exatamente da incipiente biblioteca, Os tambores de São Luis, de Josué Montello. A consciência pesou e 4 dias depois devolvi o livro.

Os reencontros desta vida me colocaram nos rumos da antiga escola que tanto amei. Fui convidado pela Pró-Reitoria de Graduação da UEMA, minha Universidade, a coordenar o vestibular, PAES, numa escola. Qual não foi minha grata surpresa quando olhei a tabela com o meu nome e o da escola qual trabalharia num domingo ensolarado de novembro? Lá estava: Colégio Almirante Tamandaré, na Cohab. Me sorri por dentro. Voltei a minha puberdade e os sonhos de uma juventude em mim já perdida.

No belo domingo refiz o mesmo percurso de 23 anos atrás, passei pelas mesmas ruas como se caminhasse com o vento, agora com lenço, documento, num sol de novembro e como professor.

Ao chegar encontrei uma escola abandonada, aos pedaços, piso arrancado, paredes descascadas, banheiros imundos sem portas, instalações elétricas por fazer, sujeira, entulho, nada que lembrasse a alvissareira de duas décadas atras. O pátio com um pé direito altíssimo tinha uma cobertura de telha de barro agora é coberto por um zinco horrível. Exatamente 23 anos depois ela está muito, muito pior de quando eu estudei.

Havia uma placa de reforma bem na frente. Conversei com um professor e ele me disse que a construtora parou a reforma por falta de pagamento há mais de 6 meses e que depois disso nada foi feito.

Não sei quem é o culpado, ou os culpados, não sei o que aconteceu, só sei que o tempo foi cruel com esse espaço que deveria ganhar vigor e robustez, vitalidade e força, mas não, o tempo corroeu as marcas deixadas pelos que ali passaram, e hoje não há nada ou muito pouco do que se orgulhar, a não ser rememorar que um dia ali muitos jovens desenharam futuros bem melhores do que esse espaço hoje se encontra.             

4 comentários:

  1. Caro Henrique entendo sua angústia. Entretanto se analisarmos de um ponto de vista macro, provavelmente iremos chegar a conclusão que a maioria das escolas públicas desse estado, se encontram em condições similares ou até piores, infelizmente. Fazendo papel de advogado do diabo eu realizei estágio do ensino médio nessa escola e pude perceber um corpo docente bem ativo, e propostas pedagógicas sendo discutidas e colocadas em prática, apesar do lamaçal da frente, matagal do fundo e instalações não funcionais. Resumindo, o Almirante Tamandaré ao meu ver, está longe do ideal, claro, mas também está longe da realidade caótica de muitas outras escolas, se caracterizando ainda, uma boa escola inserida nesse meio educacional tão mal cuidado por gestores de todas as esferas.

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    1. Caro Alvaro, fazer tábula rasa alegando que essa é a situação geral das escolas é medir por baixo o que deveria ser condição minima de trabalho. Não falei dos professores, afinal , não os conheço, falei das condições fisicas. Claro que não é preciso de espaço fisico para se ensinar, mas no caso de uma escola tão grande como o Almirante o espaço é condição sine-qua-non. O que denunciei foi o descaso, a falta de respeito. certo, brother?

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  2. O descaso é reflexo do péssimo governo em que nos encontramos e da falta de interesse de muitos gestores, se me permite dizer,que usam e abusam do poder. Mas não devemos perder a esperança, professor. Um dia a sua escola e todas as outras que já tiveram vida e alegria, alunos e professores interessados voltará. Não se pode perder a fé na educação :(

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    1. Querida BAh, não perco as esperanças não, por isso sou professor. o sentido foi de denúncia mesmo, mostrando o descaso com a eduação.

      obrigado pelo comentário

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