quarta-feira, 8 de outubro de 2014

sobre o resultado das eleições presidenciais

Nada mais enganoso do que acreditar na rápida ideia de mudança conceitual ou mental política dos brasileiros. Apesar de alguns poucos avanços no que tange à eleição de certos governadores e de alguns partidos tidos de esquerda, a vertiginosa morte do DEM, basta olharmos o quadro de deputados estaduais e federais para percebermos o quanto o voto é fruto de grotões de miséria, de toma lá dá cá, de um típico balcão de negócios.

A coisa no Brasil funciona assim: o estatuto da reeleição opera uma máquina perversa de desvio de verbas públicas para compra de prefeitos nos interiores brasileiros, os municípios são fatiados entre os correligionários, os aliados e aqueles que dão sustentação ao grupo político vigente no poder. A oposição recebe verba de campanha de setores os mais podres da sociedade, na esperança de que, uma vez seus patrocinados eleitos, altere a relação de beneficiados nas licitações. 

Nem sempre o avanço da eleição de um governador tido por progressista é acompanhada de renovação dos quadros para deputados estaduais e federais. Uma rápida passagem pelos eleitos Brasil afora, vemos a assunção de filhos, netos de oligarcas, filhas, genros de corruptos, apadrinhados de velhos caciques, num ciclo renovado não da política, mas de nomes associados a velhas práticas políticas.

O amorfismo da democracia brasileira com seus 35 partidos políticos registrados no TSE configura uma babilônia prefigurada de governabilidade, que no fundo não passa de ausência de correlação entre ideologia e representação social. Não existem no Brasil 35 ideologias dispares e contraditórias, mas sim, interesses privados em partidos políticos que recebem inclusive verbas públicas do chamado fundo partidário.

O alto índice de abstenção, 27% é outro sintoma do desencantamento com a política, e olha que no Brasil votar é obrigação, e não direito. Estamos muito longe de entendermos o papel da representação democrática, na verdade ela caducou antes mesmo que a população brasileira acreditasse ou sentisse representada por ela.

São Paulo, que se arvora de ser um estado rico e supostamente esclarecido, reelegeu o palhaço Tiririca, o ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos, assumidamente homofóbico, Marcus Feliciano, reelegeu o atual governador, Geraldo Alckmin, imerso num grande escândalo de corrupção do metrô e na maior crise hídrica e de abastecimento de água da história do estado, já no primeiro turno.  

País afora, velhos nomes da velha política, como Collor de Melo, ex-presidente impedido de governar, se elege Senador em Alagoas, o filho de Renan Calheiros vence no mesmo estado para governador.

No plano nacional, vão para o segundo turno os dois piores nomes do cenário político; Aécio Neves, ex-governador de Minas, que construiu um aeroporto para sua família com recursos públicos, perseguiu os professores da rede pública de Minas Gerais, perdeu as eleições para Dilma no seu estado, filiado ao PSDB, cujo projeto privatista perseguiu as Universidades Federais, tentou privatizar o Banco do Brasil e a Petrobras, governou com arrocho salarial em nome do superávit primário, o que levou a bancarrota a Europa, e agora se traveste de novo, diferente do tucanato de São Paulo que domina o partido; de outro, Dilma Rousseff, filiada a um partido morto que nem de perto lembra as antigas bandeiras de ética, imerso em casos de corrupção sucessivos e que há 12 anos governa o país aparelhando o estado.  

Estamos assistindo ao mesmo embate entre PT e PSDB, cuja cenário já domina o Brasil nos últimos 20 anos (dois mandatos de FHC, dois mandatos de Lula, e um de Dilma). O placar é 3 x 2, pode ser 3 x 3 ou 4 x 2.  Ainda assim, não muda muita coisa. Se Aécio vencer assistiremos a repetição do arrocho salarial que marca os governos do PSDB em nome do crescimento econômico, da política cambial, da pressão internacional, dos especuladores financeiros. Se Dilma for reeleita, terá que fazer milagre para reverter o baixo crescimento brasileiro, terá que modificar o aparelhamento do estado cujos tentáculos dos seus correligionários não querem abrir mão, terá que mostrar eficiência na gestão de um estado pesado e corrupto, terá que reverter a desconfiança do setor produtivo e dos investidores.

Os projetos são muitos distintos dos dois partidos, mas ambos pecam pela falta de mudança na perspectiva da boa política, da renovação sobre as relações sociais, já que se voltam para a necessidade de controle do aparato burocrático do estado. Ainda pautam ações como demanda-resposta, e não enquanto proposições inovadoras para a melhoria de vida dos habitantes do país. Além do que, seccionam o Brasil entre ricos e pobres, entre os supostos beneficiados por programas sociais e os não beneficiados, entre o sul-sudeste e o norte-nordeste.

O PT ampliou os benefícios sociais, mas não preparou a formação de novas gerações com serviços e ensino de qualidade, perpetuou a prática do balcão de negócios que tanto criticava enquanto oposição. O PSDB com seu discurso de moralização, transparência, eficiência, é insensível aos verdadeiros problemas profundos brasileiros e enxerga a máquina do estado como instrumento catalizador do desenvolvimento sem gente, apenas com números e cifras, à reboque do que investidores estrangeiros pensam ser o melhor para o Brasil. 

Vamos assistir no 2º turno uma baixaria na campanha, troca de acusações e uma ânsia pelo poder, extensão da compreensão e concepção de politica no Brasil.  

  

      

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