terça-feira, 12 de maio de 2020

DESEJO E CRIAÇÃO: PARTE 1


Há uma estreita ligação entre a introspecção e a descoberta de mundos. As descobertas do que existe fora de nós, como se fosse possível existir o fora, ou como se o fora não fosse extensão do que há dentro enquanto projeção, enquanto vibração, ou ainda enquanto soma das coisas que somos nós, são reencontros. Não que sejamos a medida de todas as coisas, e sim que as coisas são mediadas, atravessadas para serem percebidas, ainda que existam independentes de nós. 

Mediadas, aquilo que media, meio, existente por ser nem começo, nem fim, processo, instante eterno-fugidio, eterno-fugaz, eterno-volátil, presente-ausente. O que media, conecta. O que conecta, liga, o que liga, cria pontes, ilaça. As pontes tocam extremos, servem de passagem ao mesmo instante em que são em si passagens.

Somos pontes, somos meios, somos passagens e estamos de passagem. Somos eternos, mas nem sempre existimos. Como pode algo ser eterno mesmo sem nunca ter sempre existido? Talvez, pela razão de que algo, depois de criado, passando a existir, para sempre exista, ainda que pereça.

A ideia de mesmo nunca ter sempre existido para algo existir é em si paradoxal, preexiste enquanto força, ideia, potência, vontade, desejo. O existir é o desdobramento do que preexiste. O que preexiste antes do existir é, então, uma potência de si, necessitando de algo que, pelo desejo, o torne real. Desejo e potência do que preexiste, ainda que não sejam a mesma coisa, passam a ser, pois que, depois de efetivado, o que passa a existir é uma ação do desejo.

A introspeção cria mundos, ou os mundos se revelam pela introspecção. Se aquilo que é imaginado passa a existir, então somos cocriadores de mundos, ou os mundos se apresentam a nós pelos nossos desejos de (re) encontrá-los. Os desejos são as potências da criação e, ao mesmo tempo, as vontades manifestas dos mundos de continuarem a existir em nós, por nós e em nós.

Os nós são os laços que nos afetam e nos atam ao desejo de sentir o que é existir. Existir, então, passa a ser uma forma mais elaborada do preexistir, pois o existindo tem a necessidade de se expandir, criando coisas novas, preexistentes dentro de nós, a tal ponto de não sabermos mais o que é preexistente do existente.

A introspecção cria mundos ou é criada por eles? Se os mundos são criações das introspecções, então só existem dentro de nós, e, no entanto, existem em nós e além.

Por que introspectar? Porque talvez seja a melhor forma de encontrar outros mundos para além do que enxergamos, ou porque os mundos existem dentro de nós e só podem ser acessados olhando para dentro. Um grande enigma, talvez, repouse nisto: os mundos se escondem dentro de nós mesmos, sendo espacialmente infinitamente maior que nós. Como pode o macro caber no micro? Como pode aquilo que foi criado antes se esconder dentro de nós? Porque os nós atam dois mundos: o do desejo e o da ação, sendo os mundos ações dos desejos.

Pelos desejos criamos mundos e os mundos são as nossas moradias, dentro e “fora”. Por que precisamos de mundos para morarmos? Porque o desejo do preexistir necessita da forma manifesta para a efetivação de suas extensões, uma vez que a ação manifesta reverbera o desejo e porque uma vez dentro eles querem se expandir.  

4 comentários:

  1. Desejo e criação....uma dialética constante meu amor... Lindo texto. te amo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. era pra ser poético, e menos dialético, mas isso acontece com pessoas como eu não são poetas, fazer o que ? rsrrsrs. Paciência

      Excluir
  2. Texto incrível! Gosto muito da maneira como me leva a refletir sobre a própria existência

    ResponderExcluir
  3. obrigado, que bom que gostaste, eu tento. Se te levou a refletir estou satisfeito.

    ResponderExcluir