domingo, 5 de maio de 2013

Nos tempos de nossas brilhantinas

Aumenta o som DJ. Não acelera o PIT. A batida é louca. O coração acelera.

Era sempre uma febre esperar até o sábado ou domingo para acompanhar as novidades das pistas de dança. Meu mundo, o planeta Cohab, me encaminhou nas sendas das festas regadas ao funk melody, também na época chamado de ritmo Miami, cuja versão e tradução no Brasil eram expressas pelo Furação 2000. 

Conheci as luzes de uma boite pela já extinta Hollyday, que funcionava às expensas do Centro Social Urbano, C.S.U. Na época, uma criança pré-adolescente tomando gosto por um estilo de vida que pincelava as despedidas da ingenuidade púbere.

Pochete na cintura, bermuda de surfista, corpo esguio e esquálido e uma vontade danada de ser gente grande. Éramos a geração intermediária. Havia os mais velhos, o meu irmão Homell dentre eles, e os mais pirralhos que nós, esses não iam para a Hollyday.  

Não sei por que a Hollyday fechou, só sei que logo logo a SACOTECA (Clubão da Cohab), de dia sacolão, de noite discoteca, passou a ser a bola da vez. Mas aí não iam apenas os conhecidos, gente da minha rua e vizinhança, como de vários lugares da cidade. Era para mim um ambiente hostil. Tribos de vários tipos, roupas e estilos. Era a época do Break Dance. Aí... também quis ser breakista. E fui. Não apenas, como também pichador, minha alcunha era ADERBAL, escrevendo o primeiro A como o do anarquismo. Eu nem sabia o que era anarquismo. 

A espera do próximo domingo era estarrecedora. Que próxima música nos seria apresentada? 

Depois surgiu a rivalidade com a Associação dos Moradores do Cohatrac para ver quem lotava mais a casa, qual era o melhor DJ, onde tinha mais gente bonita, essas coisas pueris....

A música era quase sempre a mesma, o funk melody, na época uma novidade. Já havia quem a criticasse acusando-a de não-música e extrema dependência da parafernália que anos mais tarde eu saberia que se chamava de pick-up. 

O funk, ainda que melody, era uma sinalização da aceleração da vida, sentida de forma mais lenta numa cidade cujo ritmo de vida era compatível com seu desenvolvimento econômico. É claro que em outras cidades já não era novidade, como no Rio de Janeiro, por exemplo, mas para São Luís e para a Cohab eram. Eu explico.

Em outros bairros mais aquinhoados, de boates mais sofisticadas, como a Gênesis, no Calhau, a percepção sobre as coisas e o mundo se faziam de forma mais rápida pela circulação das pessoas por outras cidades e países, logo, a forma de incorporação a estilos e formas de consumo se dava diferentemente dos que moravam na periferia da cidade, meu caso. Incrível !!! Na década de 80, a Cohab era periferia.  

Aqueles momentos representavam uma mudança, hoje eu sei, de um tempo mais lento, de uma atmosfera mais bucólica para uma fase mais enérgica, “promissora”, de um mundo que se descortinava para aquela geração. Era o fim da ditadura militar depois de 21 anos de repressão. Era a percepção de que aquela geração podia tudo, por isso, sentir-se aquinhoado com as novidades musicais era uma forma de estar conectado com o mundo. 

Muitos chamavam aquelas músicas de lixo musical, de enlatadas, pasteurizadas, de colonialismo, mas a verdade é que quanto tocava Xavonne (So telme telme), Stevie (Spring love X mix), Intonation (Free me lovy), Bardeux (Bleeding Heart), dentre tantas outras, as questões ideológicas ficavam de lado e todos da pista queriam ao seu modo dançar o melhor passe, acompanhar o ritmo, suar a camisa e desafiar um outro breakista a fazer melhor em meio ao cheiro de tomate, cebola, pimentão. 

Depois, era voltar andando para casa com a turba delirante pela noite de gala a la John Travolta, narrando os feitos, exagerando um pouco, contando vantagens e esperar até o próximo domingo.     

                

           














2 comentários:

  1. gostária de um dia encontrar essa facilidade de escrever coisas simples e encantadoras, seu texto me remete a infância que já não tenho mais.
    andando pelas ruas da minha cidade pude observar, que não existe mais crianças brincando pelas ruas, agora são putros tipos de brincadeiras -facebook, videogame, uns usando drogas enfim, cara na minha época tudo era diversão quem não se lembra de chutar lata, rouba bandeira escondeconde - quando faltava energia que as meninas iam bringar - vários piquenique fazíamos era diverdido, minha geração curtiu, as festas só existia um clube, lotava, até as roupas do DJ, era imitada. que pena que não volta mais, infância louca.

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    1. meu querido (a); você pode escrever sim e até melhor que eu. basta soltar sua imaginação. fechar os olhos, abrir a caixa de lembranças e soltar a mão. é facil.

      abraços

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