segunda-feira, 8 de abril de 2013

O fim das revoluções por minuto

Sábado chuvoso. Arena molhada, um punhado de gente regurgitando lembranças de um passado. Um passado de uma década perdida, de uma geração que começava gozar do fim da ditadura militar.

A década de 80 no Brasil começava a experimentar a sensação de pensar em liberdade, longe de 21 anos de ditadura militar, inflação alta, altíssima, morte de um presidente eleito, Tancredo Neves, bandas de rock cujas letras falavam da condição política no Brasil - fórmula do sucesso -, rebeldia na cabeça. 

Dentre as tantas bandas, eis que surge uma intitulada: RPM: Revoluções Por Minuto, ainda que fosse uma alusão às rotações por minuto, forma de rodagem de um disco bolachão. Com letras de cunho ideológico, um vocalista galã e um baita de um tecladista, Luis Schiavon com suas invenções e mixagens de tirar o fôlego, a banda foi uma coqueluche na década de 80 se destacando dentre outras como Paralamas do Sucesso, Titãs e Legião Urbana. 

Músicas como Rádio Pirata, Alvorada Voraz, remakes de Secos e Molhados, "flores astrais", de Caetano Veloso, London London, essa atmosfera qual as bandas como o RPM estavam imersas se coadunavam com o desejo fremente de mudança do mundo, do Brasil, da América Latina, a revolução era pra ontem, não poderia esperar. 

No último sábado fui ao show da banda RPM na ânsia de rever aquela atmosfera de mudança da década  de 80 e desfrutar daquilo que nos ludovicenses não pudemos: assistir ao show da banda, afinal, só havia  estado em São Luis em 1991. 

Num remake de Alvorada Voraz a banda já na década de 2001 citou uma série de políticos envolvidos em casos de corrupção ou que destorciam a concepção de representação politica, dentre eles, o oligarca-mor do Maranhão, José Sarney. 

Para efeito de explicação, José Sarney é o responsável, o principal chefe político do grupo que governa o Maranhão desde 1966, quando foi eleito governador do Estado. De lá para cá o Maranhão sempre se destaca dentre as piores coisas do país: analfabetismo, crime de pistolagem, conflitos agrários, assassinatos de camponeses, pobreza, miséria, êxodo rural, péssima saúde, dentre outras mazelas. É o mais antigo oligarca do pais, o mais longevo politico herdeiro de um país clientelista, personalista, coronelista, populista, enfim, representa o que de pior existe na politica brasileira. É o dono do Maranhão.

Qual não é a nossa surpresa quando o vocalista numa atitude covarde, pusilânime, revendo o passado da banda de posições politicas, praticamente pede desculpas a Sarney ao dizer que a critica a ele feita no passado não passou de uma licença poética, desconsiderando todo o mal que o grande oligarca fez ao Maranhão e ao Brasil ao longo de sua trajetória politica. É a maior constatação do fim das questões politicas, do atrelamento das bandas à industria cultural, da contestação dessa atmosfera dominada pelo capital que subjuga a ideologia em detrimento do cachê de um show, da parcimônia, de querer sair bem na fita, de não querer polemizar, o oposto do que o Rock sempre representou no passado. 

A atitude do RPM não é isolada, é mais uma constatação do fim das lutas e bandeiras politicas, de novas gerações que preferem a diversão em detrimento da luta, há exceções, claro, do solapamento das trincheiras e das rebeldias, do capital que panegiriza tudo, que esmaga e corroí a perspectiva da transformação, da indústria do entretenimento que não gosta de politizar as questões da arte, como se arte fosse imparcial e ingênua.

E isso tem se transformado o Brasil. As bandas de outrora que eram rebeldes se transformaram em bandas chapas brancas, não polemizam mais nada, falam de amores perdidos, de esperança, se esquecendo da crueza da vida ou como se a esperança fosse um devir em que não se precisasse construí-lo no presente.

Quer fazer média? Quer ganhar o cachê do show? Canta uma hora e meia e vai embora, mas não precisa desconsiderar a nossa inteligência ou achar que todos no Maranhão são capachos de Sarney. Sarney é dono do Maranhão, mas não de nossas consciências. As pessoas que foram ao show queriam por um átimo de segundo relembrarem suas lutas, suas juventudes, suas lembranças e vidas, e não ver uma banda decadente, nostálgica, agradecendo a todo instante por estar em São Luis como se fosse uma dádiva e ainda por cima chamando uma critica ao grande oligarca de "licença poética", isso é uma ofensa à poesia. 

De fato não há mais revoluções por minuto. É necessário nos reinventarmos.                           


                  

3 comentários:

  1. Só efeito de curiosidade, a banda ja veio aqui se não me falha a memória, em 1991, apresentaram-se no ginásio do antigo colégio Marista (Eu fui!)
    Não é surpresa minha o comportamento deles atualmente, haja vista não termos uma cultura revolucionária de fato... A maioria que levantaram bandeira contestatória na Ditadura (em seu início e término) estavam de fato preocupado da abertura de uma democracia capitalista, que para mim hoje é uma ditadura do mercado com uma ideologia mais poderosa que aquela que viveram!!!
    Mas um excelente artigo Henrique... Lembrou muito nossos debates em sala de aula na UEMA!!!

    Prazer acompanhar essas leituras aqui novamente!!!

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  2. Caro Henrique, a dita 'geração coca-cola' (contemporanea aos revolucionários por minuto) foi pra casa...

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  3. justamente hoje, quando comentária a bela proposta de Marcos Felliciano, aparece-me esse texto, que por acaso, se encaixa perfeitamente no contexto, posso até está errado, mas há uma aminésia geral da população- pricipalmente em termos politicos- lembro-me dos jovens gritando as músicas da banda RPM, principalmente, alvorada voraz, hoje jovens entregues nas drogas, e a imprensa, nada se manifesta em relação aos os mesaleiros que inclusive, já foram julgados, e estam presidindo uma das mais importantes comições de do Brasil, e justamente a proposta é essa: marcos feliciano renucia se,José Genuíno e João Paulo Cunha renunciassem também, ótima proposta. estamos é apeados a um partido politico que faz o que quer, e emparelha o Estado a seu bel prazer, e fora que, faz o que quer e minguém faz nada, qem poderia pelos menos expor, está estritamente focalizado em Marcos Feliciano. Só para se ter uma idéia, a governadora do Mranhão, está sendo cassada a aproximadamente dois anos, e seu processo, cogila mas mãos do procurador Roberto Gurgel OU É UMA AMINÉSIA GERAL, OU HÁ, ALGUMA INFLUENCIA PARA SILENCIAR A VOZ.

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