terça-feira, 26 de março de 2013

De Cabral a Cabral: a expropriação de terras indigenas continua no Brasil

Na última sexta-feira, dia 22 de março, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, chefe do comando da tropa da Policia Militar, autorizou a expropriação, a expulsão dos índios que ocupavam um terreno ao lado do estádio do Maracanã, bem como a remoção do Museu do Índio, nas cercanias. 

Na área viviam cerca de 12 etnias. Tudo isso foi feito em nome das obras da famigerada Copa do Mundo de futebol em 2014. Ou seja, em nome do evento vale enviar a tropa de choque da Policia Militar para expulsão dos verdadeiros donos da terra.

Eu tenho vergonha e nojo do meu país. O anúncio da vitória do Brasil como sede do evento foi anunciado em 2008, logo após aquela controversa e emblemática derrota por 3 x 0 para a França - não que não merecesse, o time era previsível, limitado e extremamente dependente de Ronaldo, o fenômeno, e o técnico da França dias antes do confronto anunciou como venceria o Brasil. A questão foram as circunstâncias: convulsão de Ronaldo e a tentativa do jogador Edmundo de contar o que realmente aconteceu nos bastidores. O problema é a falta de planejamento, a desorganização e o autoritarismo do governador em  retirar etnias indígenas de seu local de pertença.

Sou um dos muitos brasileiros que são contra a Copa do Mundo por razões simples: o desperdício de dinheiro público, a gastança, a farra, a falta de transparência, de seriedade na execução e a inversão de prioridades: esse país carece de esgotamento, de água potável, de moradia, segurança, educação, saúde, dentre tantas outras coisas, no entanto, vai gastar bilhões de reais num evento tão curto e de tão pouco retorno financeiro.

Mas a questão central ainda nem é essa e sim, o autoritarismo, a falta de respeito, o descaso com os nossos antepassados, com o Museu do Índio, órgão importante de pesquisa etnográfica no Brasil. Esse episódio revela a face de um Brasil autoritário, antidemocrático, fascista, cuja pressão, a falta de controle de gastos e planejamento levam um governador a retirar 1 ano antes do evento importantes etnias do local. 

Por que não pensaram nisso desde 2008? Quais foram as estratégias? Quem idealizou o projeto para o Estádio do Maracanã, que aliás, já havia sido reformado para os jogo pan-americanos de 2007 e seguido padrões internacionais? Quanto custou a reforma do Maracanã em 2007? Quanto vai custar para a Copa de 2014?

Esse país não respeita etnias, grupos minoritários, pobres, gente simples, é um país de uma classe média autoritária que recentemente começou a enriquecer com os louros da estabilidade econômica. 

A história desse país é a história do sangue derramado dos indios e negros. Dos índios que foram e tem sido expropriados desde a chegada do Português Pedro Alvares Cabral em 22 de abril de 1500 e que de lá para  cá tem se assistido a constantes assassinatos, expulsões, conflitos envolvendo terras indigenas. É uma vergonha: a etnia primeira que aqui estava não tem sido devidamente respeitada na sua condição de legitimos donos da terra.

Sabem o que a elite desse país no fundo gostaria? Que se fizesse aqui o mesmo que foi feito na Austrália quando os aborígenes praticamente foram dizimados pela colonização britânica, ou como na Nova Zelândia, cujos Maori praticamente desapareceram. 

Não à-toa surgiram desde o século XIX teorias racistas alegando a inferioridade intelectual e biológica brasileira por conta da miscigenação. Esse país tem vergonha de suas raízes indígenas. Fato. Por isso, um governador se acha no direito de arrancar do seu local original etnias e um importante órgão de pesquisa nesse pais.

Vale a política do pão e circo, exibição da pujança brasileira num mega evento esportivo encobrindo nossas profundas mazelas e desgraças sociais.

O Presidente do Senado é Renan Calheiros, acusado de uma série de crimes de corrupção, o Presidente do  Comissão de Direitos Humanos é um pastor evangélico racista e homofóbico, Marco Feliciano, no entanto, os brasileiros fingem que isso não os atinge, que não é com eles. Isso é uma vergonha.

A corrupção grassa esse país, é endógena, está em todos os órgãos. Enquanto isso, vale a politica do bota baixo, de expropriar, singrar e sangrar em nome de uma suposta imagem positiva do país. Estamos muito longe, aqui debaixo do lado do Equador a porrada come e é frouxa.              

  

6 comentários:

  1. marineide silva mendes26 de março de 2013 15:51

    Que pais é esse?
    Que excluir a importância historica e cultural de um imovel centenário em nome de um dito plano de acessibilidade para esvaziar um estadio em oito minutos.

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    1. pois é marineide... é simplesmente vergonhoso

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    2. Henrique concordo com todas suas opiniões, não sou a favor de copas do mundo, ainda mais em países onde a corrupção atua plenamente, fora que é um verdadeiro desperdício de dinheiro público,fora que o Brasil não têm as estruturas necessárias -será um vexame-enfim
      basta ver o exemplo da Africa do Sul, a maioria dos estádios foram demolidos acarretando prejuízos para aquele país, locais aonde poderia ser construídos obras em beneficio social, ergue-se uma estrutura intacta, que que consome milhões- no Brasil bilhões.
      Mas Henrique minha indagação é outra: o museu do índio estava abandonada desde de 1978, e as pessoas que residiam naquele local e a estrutura está precária, o local esta sendo um pondo de encontro de usuários de crak, e alguns índios que restava nesse local foram abrigados em um terreno em Jacarepaguá.

      Sobre o deputado Marcos Feliciano, também não concordo com nem uma virgula do ele pensas ou achas, nem tão pouco votaria , nem o escolheria para presidir nenhuma comissão, mas vamos respeita a democracia, se foi escolhido deve presidir com toda imparcialidade possível, os ataques que está sofrendo, também fere os direitos humanos, ou não? o que me parece é, que só os Homossexuais têm de se manifestarem, ou fazerem o que quiserem, em um Estado democrático as opiniões de cada um devem der respeitadas sem nenhum constrangimento, se Marcos Feliciano interpretar a Bíblia de forma equivocada é problema dele, o que não podemos esperar é que não leve seu julgamento religioso para a seção.PS PRIMEIRAMENTE , NÃO SOU HOMOFÓBICO, ADMIRO O UNIVERSO GAY, ESTOU APENAS MANIFESTANDO MINHAS OPINIÕES.

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  2. gostaria do site ou, e-mail de mônica piccolo. por favor, quero tirar algumas duvidas

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  3. meu caro (a). gostei muito de suas colocações, todas pertinentes.

    quanto ao museu do indio o problema é a forma como se encaminharam as questões, ou seja, deixaram para em cima da hora decidirem sobre o plano de evacuação do maracanã. se o museu estava abandonado, pior ainda, só agrava o estado de descaso desse pais com a questão indigena. esse me parece ser o problema, em nome de um mega evento vale tudo, inclusive mandar a PM arrancar a força quem quer que esteja no local.

    agora, quanto ao marcos feliciano eu discordo plenamente. quem é racista e homofóbico não pode em hipótese nenhuma presidir um comitê de direitos humanos, sobretudo quando sabemos como se deu as eleições. é democracia? sim, mas existem limites para a forma como se ocupam os cargos e isso só revela a falácia dessa questão democrática. A pior bancada do congresso nacional é exatamente a evangélica. os dados revelam que 90% dos deputados evangélicos possuem problemas na justiça, são exatamente os mais faltosos, o que menos apresentam projetos, enfim, foram eleitos por uma condição corporativista religiosa e por esse motivo colocaram um par na presidencia da comissão dos direitos humanos.

    ele tem o direito sim de interpretar a biblia errado, mas o estado é laico, ele não tem o direito de, em nome de suas convicções racistas e homofóbicas deliberar sobre questões de tanta gravidade. é claro que as concepções dele vão interferir no julgamento, veja os depoimentos a que ele tem prestado mesmo depois de tanta pressão social. em não só não mudou em nada suas opiniões como agora passou a atacar a imprensa.

    é muito grave esse caso do marcos feliciano porque só revela a falta de conexão entre as estancias representativas e a sociedade. se nós fossemos uma sociedade civil mais critica e organizada ele nem teria sido eleito. o mundo inteiro está chocado com essa questão e não apenas o Brasil. é um escândalo. basta ver os noticiarios internacionais, é uma vergonha. imagina ele deliberar ou investigar casos que envolvam negros e homoafetivos? em nome da torpeza e equivoco religioso vai dizer que Deus quis assim. Ele não tem capacidade moral e intelectual para presidir essa e nem uma outra comissão. a democracia também prescinde a controvérsia, o choque, o debate, a indignação.

    nÃO SE engane, ele vai sim levar seu julgamento religioso para as sessões, aliás, continua fazendo.

    abraços e gostei muito da tua participação

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