domingo, 28 de abril de 2013

Textura

As mãos destreinadas e não hábeis desenham traços ilegíveis,
são movimentos sinuosos em busca de um traço,
que não veio porque não há nenhum
a não ser a vontade de ser, já sendo,
quanto mais as mãos espalham a massa arenosa
mais se parece com nada
a não ser a vontade de parecer com alguma coisa;
quem sabe um desejo de um artista,
um salto pela falta de destreza em já sendo alguma coisa,

De longe um painel, uma moldura de um quadro,
de perto, apenas desenhos ilegíveis, rabiscos sem sentidos
a não ser a vontade de ser alguma coisa, já sendo: um traço de moldura,
um espaço seu, uma marca de um desejo de um artista sem a destreza querendo ser alguma coisa

Mas aquelas mãos destreinadas pincelando amarelo ocre naquela massa arenosa
impingiam digitais numa parede que já passou a ser uma moldura, um espaço seu,
um lugar de identificação, um dos poucos, talvez o único naquele lugar,
que de longe parecia um quadro, de perto, apenas traços indecifráveis

Quanto mais latas de massa mais se revelava a falta de treino, porém, mais desejo de ser, já sendo,
já não importava o resultado final, o acabamento, as leituras, pois aquilo não era uma simples textura
era a vontade de ser, de fincar um lugar naquele espaço, de ser alguma coisa,
de tentar dizer que estava tentando,
era uma forma de tentar, do seu jeito,
pura e simplesmente uma forma de tentar

Hoje, não há mais amarelo ocre,
uma camada branca encobre o que um dia foi um traço de moldura,
para se saber se um dia foi textura é necessário chegar bem perto
e reconhecer os antigos traços indecifráveis,
o que um dia foi a vontade de ser,
o que um dia foi a forma de dizer que queria ser
o que durante algum tempo foi
    











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