domingo, 6 de outubro de 2024

Adeus, Sebastião!

A visão do telhado não procura mais, ainda é encantador, agora encantado está.

Não são perguntas sem respostas, não estão fora, sempre estiveram na imersão do seu próprio universo.

 E o peso do corpo o telhado não comporta mais, uma vida inteira olhando para fora, girando em  círculos, ciclos circunspectos, numa trajetória nada retilínea, negando a história com sua cronologia.

Chronos está morto. 

Num jogo de espelhos são vários Sebastiões; hora é João, Maria, Antonia, Condorcet,  Margoris, se entreolhando em novas versões. 

Em cada versão o peso do corpo, e o peso do antigo já não mais há, somente do novo que o telhado não comporta.

Sebastião desce do telhado! Caminha. A visão como uma lente abriu um portal dentro de si: luas cheias, cometas, sóis, nuvens, o seu corpo pesado feito de poeiras das estrelas como uma brisa leve soprando por vezes redemoinhos, furações, tufões, às vezes larvas, vulcões, fogo, mar, ventania, coloração ventia.   

Buscou palavras, encontrou glossolalia, rebuscou textos, encontrou palimpsetos. Correu mundo, encontrou buraco sem fundo. 

Feriu, feriram-no. Sorriu, choraram-no. Mentiu, calaram-no. Esculpiu, desnudaram-no. Amou, traíram-no. Traiu, amaram-no. 

Viveu, mataram-no. Matou, ressuscitaram-no. 

De todas as vertentes, de tudo um pouco viveu: sorveu o fel, o mel, foi réu, juiz, amante,  andante, errante, semblante de dor, dúvida, ódio, ira, vertigem. 

Lutou, cansou, guerreou, bradou, ousou,  criou, jurou, orou, esbravejou, fechou os olhos e partiu. 

Se encontra no mesmo lugar onde tudo começou, debaixo do telhado iniciando uma nova jornada. Não  olha mais para o passado, agradece a antiga versão, se despede com gratidão.

Retira a flecha da barriga, espera a cura e a cicatrização. A flecha agora aponta para o alto, olhando para o céu, com os seus pés no chão. 

Já não se olha mais Sebastião, Sebastião não há, até a metáfora perdeu o anti-silogismo, a rima acabou, a palavra murchou, só o encanto não acabou como as ondas do mar.
















  

3 comentários:

  1. ... é não é somente mais uma flecha... porque é a flexa que fere a vida de todos os seres vivos... abraços...

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    1. a mesma flecha que usaram para matar sebastião... já não mata mais. abraços, irmão

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  2. é que ele agora olha o universo através de si mesmo.

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